Uma breve-longa história do fansubbing brasileiro

Este texto é incrivelmente maciço e trata da história do fansubbing no Brasil como um todo, que também envolve picuinhas e intrigas entre pessoas. Leia quando estiver calmo e possuir bastante tempo. Este texto foi feito para ser publicado em um blog específico, mas devido às circunstâncias, não o foi.

Eu sou um ex-fansubber.
Se você sabe o que é esse termo, isso pode soar tão ridículo quando comparado a termos como “ex-assassino” ou “ex-alcoólatra”, mas tal fato não é exatamente algo que eu me orgulhe ou me lamente. Na verdade, dediquei boa parte de minha vida a um trabalho extremamente ingrato, mas que também tem seu lado bom – conheci pessoas tão divertidas e tão perigosas que se é impossível de descrever facilmente.

Estamos quase no final de 2014 e existem muitas coisas que ficaram escondidas nesse obscuro mundo, principalmente quando ele entrou em decadência. Vi e presenciei muitas coisas ao longo dos pouco mais de 8 anos que legendei animes tanto em grupos nacionais quanto internacionais e sempre as carreguei nos ombros por um bom tempo. Imagino que só posso retirar tal fardo das costas quando deixar registrado várias das histórias que estão nos bastidores das pessoas que são parte da história do anime no Brasil.

Mas antes de começar a contar tais histórias devo dar uma situada quem chegou até esse parágrafo e está um pouco perdido, mas ainda não fechou o navegador.

Fansub é o acrônimo inglês para as palavras “fan” e “subtitles“, o que essencialmente corresponde a algo como “legenda (feita) por fãs”; quem faz essas fansubs é o fansubber. Basicamente, se você já assistiu qualquer anime ou série por meios não-oficiais, tenha certeza que existe uma equipe de pessoas que doaram um pouco de seu tempo para fazer tal legenda, e são exatamente essas as pessoas as responsáveis por divulgarem todo tipo de conteúdo internacional por aqui, no Brasil. Mas vamos esquecer um pouco disso por enquanto.

Não posso oferecer muito a contar antes do ano de 2002, já que ainda não estava muito inserido no contexto, mas vamos lá. Até onde sei, antes dos 2000, animes aqui no Brasil eram basicamente divulgados por dois meios essenciais: por TV e por VHS/DVDs. No primeiro caso, ficávamos a mercê das grades dos canais de televisão: dando uma googlada rápida, é possível ver que de 77 a 99, foram exibidos pouco mais de 27 animes nos canais brasileiros de televisão, uma quantidade ínfima para o que era produzido aquela época (e uma curiosidade: o primeiro anime a passar no Brasil foi Eight Man, na Globo).

Uma outra solução era através do aluguel ou compra de VHS, que eram lançados oficialmente aqui e normalmente sempre de animes que passavam na TV – Shurato e Cavaleiros do Zodíaco são os maiores exemplos desse caso. O primeiro anime citado, em especial, era medíocre e tinha uma dublagem que sequer quero lembrar, mas isso não impedia de estar em toda locadora possível.

Mesmo assim, o portfólio de anime que se tinha disponível aqui no Brasil para assistir era mínimo – e aí que entram os fansubs. Em especial, existiram duas fases aqui no Brasil: a analógica e a digital, onde me deterei mais na segunda. A primeira era uma distribuição via VHS em que você necessitava conhecer os contatos certos para conseguir uma copia do anime legendado desejado – independente de estar em inglês ou não. Por si só, mesmo que você quisesse fazer parte de um grupo de legendagem, existiam dois grandes problemas: o primeiro se referia quanto à barreira do idioma, porque nem todo mundo sabe japonês e, o segundo, era obter as raws (ou seja, o anime sem legenda, bruto) da série desejada, o que poderia ser financeiramente caro. Um dos grupos que passaram por essa época e duraram mais tempo aqui no Brasil foi o Tchã-Nã-Nã Anime Clube, conhecido como TNNAC, que ainda mantém o website ativo mesmo sem legendar mais nada há alguns anos.

E então, com o início da popularização da internet aqui no Brasil, começa a fase do que os gringos gostam chamar de digisubbing, um acrônimo para digital subbing. À título de curiosidade, o fansub estadunidense em atividade mais antigo é o Central-Anime que o fazia em VHS desde 1992, mudaram para a versão digital e continuam ativos até hoje sem odiar animes (como qualquer pessoa normal odiaria).

A história do fansubbing digital se mistura um pouco com a da internet no Brasil: sua distribuição inicial foi através do IRC, quando este ainda estava engatinhando por aqui. Os primeiros grupos que se tem registro são o OMDA (“O Melhor dos Animes”), o Animanga e o Animefreaks, e a distribuição deles se dava basicamente por uma rede de IRC denominada Aniverse. Com a explosão do IRC no Brasil e da (hoje extinta) BRASnet, os grupos existentes prefiriram mudar e lá permaneceram um bom tempo.

Nessa época, os animes eram distribuídos em formato AVI através dos codecs de vídeo XviD e MP3 para áudio. Como blurays não haviam se popularizado (ou nem existiam ainda), animes lançados em DVDs tinham resolução normal em 848×480 ou mesmo 640×480, o que fazia com que arquivos tivessem o tamanho médio de 170 a 200 mb. O mesmo ocorria para séries que passavam em TVs japonesas: a grande maioria passava nessa resolução e, por isso, os grupos brasileiros preferiam manter o mesmo tamanho. Na verdade, mesmo que as séries passassem em 1280×720, imagino que os grupos iriam querer manter a resolução padrão simplesmente devido às velocidades de internet presentes na época (quem nunca deixou o computador ligado pela madrugada, afinal?).

A distribuição do arquivo em si se dava através de “bots” do IRC – servidores que armazenavam os arquivos e serviam solenemente como o propósito de enviar. Um usuário poderia ficar esperando horas até baixar um arquivo, principalmente porque uma boa parte deles possuía conexão abaixo dos 256 kbps. E foi aí que começaram a surgir os reencoders.

Eu não sei quem foi o primeiro reencoder (ou o primeiro grupo de reencoding) ou quem teve a ideia de fazer isso de fato. O formato mais utilizado era o RMVB, que costumeiramente reduzia em 1/3 o tamanho do arquivo AVI e, mais espertamente, essas pessoas distribuiam o conteúdo livremente por páginas da internet. O grupo (extinto) ANC era bastante famoso nos primórdios disso tudo, mas, deixando isso a parte, existia uma rixa entre os fansubs tradicionalistas e os grupos de reencodes por dois motivos básicos: o usuário que baixar do grupo de reencode provavelmente teria a percepção errada da qualidade do fansub (por exemplo, imagem de vídeo ruim ou o fato do RMVB não suportar vários efeitos de legenda) e porque o usuário que baixar o anime vai muito provavelmente querer ajudar o grupo de reencode e não o fansub. E isso era sério e, em certo ponto, ameaçou os fansubs brasileiros.

Estou quase chegando na parte que quero para começar a contar minhas histórias de fato, mas, antes disso, quero dar uma pausa no texto e explicar como de fato é feito uma legenda; existem algumas pequenas variações no modelo que falarei mais a frente, mas o processo básico é o mesmo, mantendo-se até hoje, e provavelmente os aperfeiçoamentos que os fansubs foram fazendo ao longo do tempo nesse processo renderia um incrível artigo na área de engenharia de produção.

O primeiro passo para se legendar anime é o que chamamos de raw capping, onde basicamente esperamos o anime ser exibido e esperamos alguma boa alma colocar o anime sem legendas na internet. Em geral, esse arquivo pode vir de duas formas: no formato TS (.ts, transport stream) que é o diretamente gravado da televisão, com comercial e tudo, cujo tamanho médio pode variar de 3 a 8 gigabytes, ou em qualquer outra extensão ao qual uma pessoa anterior já pegou o .TS, fez todas as modificações necessárias e reencodou o vídeo para AVI (ou MKV) de forma a diminuir o tamanho (em torno de 300 megabytes). Alguns poucos grupos possuem contatos com alguém que tenha um equipamento que grave exclusivamente a série para si. Tais equipamentos, além de serem caros, possuem fabricação proibida no Japão, sendo importados de outros países, e tendo o uso prático um pouco complexo (pelo menos foi isso que uma pessoa que gravava me disse, certa vez).

Quando temos a série que desejamos legendar em mãos, costuma-se fazer a seguinte ordem de processos: tradução (onde se traduz), temporização (ao qual definimos os tempos em que cada legenda aparecerá, com base no áudio), a revisão da legenda, o typesetting (em que se define as fontes de legendas e efeitos, como karaokês e placas que aparecem), o encoding e a distribuição.

Como a base de gente que fala japonês e que queira traduzir anime sem custo nenhum é baixíssima, boa parte dos grupos brasileiros traduzem animes a partir da legenda de grupos estrangeiros, o que aumenta ainda mais o tempo para se lançar um anime. Enquanto que a tradução e a revisão são passíveis de se fazer em um bloco de notas simples, os outros processos, no início da década de 2000, dependiam de um programa denominado SubStation Alpha – e você essencialmente só podia legendar se o tivesse. O uso dele é relativamente simples, mas o programa era um pouco difícil de se obter e sua melhor sorte era falar com quem já o tivesse.

Tudo resultava em uma legenda no formato .ssa e, com isso, era possível colocar a legenda no vídeo, que é o encoding. Isso era feito em outro programa chamado VirtualDub, onde se era possível aplicar diversos filtros no vídeo, muitas vezes para melhorar a qualidade ou recortar cenas indesejáveis (por exemplo, resquícios de comerciais que ficaram). Por fim, o processo final era a distribuição.

E era justamente essa distribuição que era cara e fazia muitos fansubs fecharem as portas. Dado que a internet no Brasil (principalmente a domiciliar) não possuía velocidades muito altas – ou eram demasiadamente caras – a alternativa para os grupos daquela época foi procurar servidores dedicados, muitas vezes no exterior. Vários grupos lidavam com bastante dinheiro, onde caixas de 2-3 mil reais em doações e custos mensais de 400-500 reais eram bem comuns. É fácil ver que uma pessoa comum não teria condição de bancar tudo sozinho e que, sem doações, o grupo fecharia fácil; e daí advém a rixa entre fansubs e reencoders (por isso que era uma prática comum colocarem nos eyecatchs de animes mensagens como “Encontre-nos em nosso website” ou “Feito de fãs para fãs” ou mesmo a logomarca do grupo). Aliás, essas mensagens também tinham a intenção de coibir a venda dessas legendas (afinal, ninguém quer que outra pessoa saia ganhando dinheiro no que você faz gratuitamente).

Por fim, uma das coisas mais incríveis que já aconteceram à cena de anime no país foi a criação de um único website que centralizava todos os grupos: o Anime Blade. Ele surgiu em 2001, em uma época que para se ter domínio .com.br era necessário CNPJ, e tinha o simples objetivo de divulgar animes e mangás. Historicamente, os primeiros releases a serem registrado no banco de dados do sistema foi “Final Fantasy Unlimited 03” (Animefreaks) e “Hellsing 02” (OMDA). Mais a frente, dedicarei uma sessão especial só para eles. Também à título de curiosidade, o AnimeSuki (que é o equivalente gringo ao AnimeBlade) teve origem no mesmo ano.

Todo esse esquema de distribuição fez com que os fansubs tivessem dores de cabeça constantes e recorressem a outros meios de distribuição de animes. Um dos meios mais comuns era, ao invés de pagar pela máquina, tomava-se emprestado: essencialmente, era hackear a máquina e usar para a distribuição secreta de arquivos. Isso era uma boa solução porque não se havia tanta preocupação com segurança de sistemas como hoje (onde é muito mais difícil você encontrar máquinas vulneráveis a ataques) e essas máquinas hackeadas muitas vezes pertenciam à empresas ou universidades do exterior, de forma que costumavam ter links e HDs generosos para os grupos utilizarem. O maior problema era simplesmente correr o risco do administrador real da máquina descobrir que você a está utilizando e, simplesmente, deletar todos os seus arquivos de lá (mas não é a toa que haviam grupos que tinham pelo menos 10 máquinas para manter a redundância de arquivos).

Mais para 2005, com a BRASnet tendo inúmeros problemas na questão de estabilidade, boa parte dos grupos começaram a se mover para outra rede em que perduram até hoje: a Rizon (alguns grupos brasileiros moveram posteriormente para IRCHighway, mas a massiva quantidade perdura na Rizon até hoje, que é essencialmente operada por pessoas relacionadas a fansubbers). Posso dizer que de 2004 a 2009 foi a época de ouro dos fansubbers; nunca tanta gente legendou anime e nunca tanta gente baixou, e várias pessoas tem seus méritos nisso tudo.

Desculpem a demora, mas aqui é onde de fato começa a história que gostaria de contar.

Eu comecei a legendar animes no início de 2006. Não sei o motivo, mas num belo dia fui em um grupo chamado ShaKaw e pedi para participar, mesmo sem experiência alguma. Por algum motivo ainda mais esquisito, deixaram que eu entrasse no grupo e logo me disseram que eu seria um temporizador e teria que temporizar um episódio do DVD de Naruto.

Naquela época, o ShaKaw era um dos maiores grupos que existiam; seu nome derivava da fusão de dois grupos que se chamavam “Sharingam” e “Kawada”. O grupo em si era extremamente lento, mas famoso por ter uma equipe que prezava a qualidade acima de tudo; para se ter uma ideia, em pleno 2006, existiam pessoas lá que faziam karaokês de anime usando softwares como o Adobe After Effects, o que era algo totalmente fora da realidade (este e este karaokês são duas pérolas lendárias e que jamais devem ser perdidas). Deixando isso de lado, esse grupo também sofria do problema da distribuição que citei acima. Apesar de ter inúmeros bots hackeados, a instabilidade deles podia dar dor de cabeça a qualquer momento, e eles costumavam dizer que “leecher (pessoa que só faz baixar) não merece luxo”. Entrei justamente na época que eles possuíam um plano ambicioso a botar em prática, composto em duas partes.

A primeira parte consistia de distribuição somente via torrents. Isso era algo inédito porque o protocolo P2P estava longe de ser popular e, com as conexões aqui no Brasil com as taxas de upload extremamente baixas, as pessoas teriam dificuldades para semear o torrent, ou mesmo não o fariam – e por isso as pessoas do grupo deram preferência a usar um tracker privado com contagem de razão upload/download. Oras, por que ter problemas com máquinas se é possível colocar os próprios usuários que baixam para ajudar a divulgar o torrent? É uma atitude inteligente, e fansubs do exterior também começavam a perceber isso: um dos sites mais populares para se baixar anime, o Tokyo Toshokan, surgiu justamente em 2006 para concentrar (indexar) torrents de diversos grupos.

A segunda parte era devido ao momento: o codec H264 estava começando a entrar mais em evidência, e ele era mais eficiente para a compressão de arquivos do que o antigo XviD no AVI. O H264 poderia ser codificado em formatos MP4 ou MKV, cada um com seu pró e contra. O MP4 tinha a vantagem de ser um formato proprietário e que era mais fácil de encontrar hardwares que o rodassem, também começando a surgir na época. E foi nesse formato (que o futuro mostrou que ele visivelmente perdeu para o MKV) que o ShaKaw apostou. Haviam outros grupos (como o Okaeri) que também estavam de transição para esse novo codec, porém imagino que o ShaKaw foi o primeiro grupo brasileiro a experimentar isso em larga escala (talvez eu esteja errado).

O mais engraçado de tudo é que esse plano foi posto para funcionar em pleno primeiro de abril. A ideia era simplesmente fazer parecer que todas essas mudanças drásticas faziam parte do dia da mentira, mas a intenção era de que elas continuariam posteriormente. O problema foi que o idiota aqui (eu) quase botei tudo a perder quando saí dizendo que era só brincadeira e que nada disso iria acontecer de verdade. No fim das contas, me deram a opção de ser expulso ou “ficar calado na minha porque fazer parte daquele grupo era uma honra”. Dado que eu queria só me divertir, preferi sair antes que formalmente me tirassem.

O interessante aqui é que tudo rumava para torrents, de forma similar ao que é hoje. Pouquíssimos grupos duraram muito tempo com a distribuição a moda antiga, e mesmo estes recorreram ao sistema de torrents em algum ponto de sua vida. A tríade dos animes shounen – Naruto, Bleach e One Piece – ainda não havia virado uma febre em 2006, mas estavam prestes à virar isso. Naruto conseguiu ser totalmente legendado com o passar do tempo, Bleach também (gostaria de mandar um “oi” pro Shinobi, o cara é realmente o ninja que traduziu o Bleach do OMDA durante anos), mas One Piece era um problema.

Antes de continuar para a próxima parte, quero lembrar que, já em 2006, uma ferramenta de legendagem (diga-se de passagem, criada por um brasileiro) chamada Aegisub começou a se popularizar e ela facilitava horrores todo o processo de legendagem, além de ser de fácil obtenção (só ir ao site). O Aegi possibilitou avanços enormes no que se podia fazer na legenda e de forma mais simples ainda. Com isso, a quantidade de grupos no Brasil e no exterior estourou – qualquer pessoa podia legendar. Basta chamar seu amiguinho de MSN, criar um website qualquer e postar no Anime Blade para divulgar. Era perfeito.

Mas voltando ao caso do One Piece, ela era uma série que mesmo hoje nunca teve seus “intervalos” preenchidos. Você assistia do episódio 1 ao 100, depois pulava para ver do 300 ao 350 e depois ia para os atuais que estavam próximo ao episódio 600. Ou via em outro idioma como inglês ou castelhano, mas isso não resolvia nada. Aliando a facilidade de se legendar animes com a popularidade que One Piece estava começando a ter, é notável que se existam diversos outros grupos focados só em legendar essa série. Eu participei de um deles logo que saí do ShaKaw, que foi criado por um website de reencode – o Geração Anime.

Não vou falar muito deste grupo ou o que aconteceu durante o tempo que estive nele, mas sim porque o lugar onde distribuíam tal série estava ficando extremamente famoso: o Seizu. Qualquer pessoa que baixasse anime via torrent obrigatoriamente conhecia aquele layout cinza com os dizeres azuis do “Seizu Anime”. Em especial, ele abrigou boa parte dos grupos durante pelo menos 2 ou 3 anos, inclusive diversos grupos que tiveram a brilhante mesma ideia de legendar Sakura Card Captors e só terminaram alguns (seis) anos depois.

Ainda assim, fazer animes da temporada era complicado. Enquanto hoje se assiste animes cerca de minutos após irem ao ar no Japão, naquela época era comum esperarmos dias só para termos os vídeos brutos do anime (através de websites como l33t-raws e saiyaman); isso levava a grande maioria dos grupos a procurarem séries antigas (e posteriormente já legendadas em inglês) para trazer ao idioma tupiniquim. Quanto a isso, existiam algumas regras no Seizu, mas a principal era a que eles não aceitavam nenhum conteúdo licenciado no Brasil. Ela também valia para o Anime Blade, já que o objetivo essencial de um grupo era “divulgar animes”. E, bem, tais regras foram respeitadas, mas não adiantaram muito na hora que se mais precisou.

Em um determinado momento, o famosíssimo website LegendaZ.TV teve seu dono preso por… bem, só Deus deve saber o motivo real, mas acredita-se ter relação com o website que ele possuía. Isso automaticamente levou aos administradores do Seizu a cessarem toda a distribuição de anime sem notícia alguma (internamente, falava-se em medo dos administradores) e… pela primeira vez, os grupos foram abandonados por um terceiro e ficaram sem onde distribuir.

A situação estava se agravando ao ponto que mesmo uma semana depois, conheci um jovem (ou nem tão jovem) de apelido Kanzaki, administrador de um grupo chamado Okidoki (ou qualquer coisa parecida), que estava prestes a setar um novo sistema para distribuição, porém melhor que o Seizu. Juntei-me a ele, traduzimos todo o sistema do tracker e, então, surgiu um novo local para os fansubs de animes: o Haitou, que nasceu e morreu com todo aquele layout branco (denominado icgstation). Fui operador do sistema por um curto período de tempo, ao qual ajudei a estabilizar e construir uma base de usuários decentes, até que por algum motivo infantil que realmente não lembro, pedi para sair da administração.

O Haitou ficou estável por um bom tempo e, enquanto bittorrent tracker de animes, fez muito mais sucesso do que o Seizu. Em seu auge, eles chegaram a possuir uma sala de encontro durante o Anime Friends e obtiveram doações o suficiente para manter seus servidores em pé. Com o tempo, o Seizu voltou à atividade, mas nunca mais fez o mesmo sucesso de antes. Voltarei ao assunto do Haitou depois.

Enquanto tudo isso acontecia nos trackers brasileiros, mudanças drásticas no fansubbing como um todo aconteciam. Naruto e Bleach explodiram de vez, principalmente devido a ajuda de “websites especializados”, e o grupo Dattebayo (gringo) deslanchou e mudou a cultura dos fansubs, se tornando o primeiro “speedsub” – ou seja, tentava fazer a legenda da forma mais rápida possível. Até onde sei, eles foram um dos primeiros grupos a ter efetivamente no Japão uma pessoa dedicada para gravar as séries para eles. Como vez por outra haviam diversos grupos fazendo a mesma série, a ideia de “ver quem lança primeiro” se difundia, já que muitas vezes quem lança primeiro ganha a maior parte dos downloads.

Séries altamente populares até hoje, como Code Geass R1 e Death Note, também passaram nessa época, contribuindo ainda mais para se chamar gente aos fansubs. Em certo momento, o auge aconteceu quando um episódio simples de Naruto Shippuuden atingiu aproximadamente 1 milhão de downloads e tinha média de 450 mil downloads semanais. Por fim, a maioria esmagadora dos grupos começou a soltar vídeos em 1280×720 e, finalmente, adotando o codec H264 com o formato Matroska (MKV).

Vamos ser um pouco técnicos aqui: como já falei, existem prós e contras de cada formato. Enquanto a maior vantagem do MP4 é justamente o fato de ser um container (formato, extensão) proprietário e que tem bastante suporte em blurays e afins, esse é o maior problema do MKV. Em contra-partida, o MP4 exige que você “grave” a legenda ao vídeo, essencialmente gerando um arquivo novo cuja legenda faz parte dele. Esse processo, denominado em inglês como “hardsubbing” pode levar algumas horas para ser realizado. O MKV, entretanto, ele permite conservar o vídeo original e apenas embutir a legenda ao vídeo, de forma que a extensão MKV engloba o vídeo e a legenda em arquivos separados, onde você pode trocar a legenda (caso tenha um erro por exemplo) ou simplesmente recuperar o vídeo para usar com outros fins – no MP4, nada disso é possível e se for necessário trocar a legenda do vídeo, além de ser necessário ter o vídeo original, terá que se esperar mais algumas horas para o processo de hardsubbing se concretizar. O MKV, no entanto, não tinha alta compatibilidade com players externos (isso começou a mudar mais recentemente) e, caso sua legenda possuísse efeitos, eles terão que ser “leves” pelo fato de estarem sendo renderizados em tempo real nos computadores.

Independente de você ter entendido ou não o que está escrito no parágrafo acima, tenha em mente que isso teve reflexos no Brasil porque facilitou ainda mais o processo de legendar por um simples motivo: 90% do necessário para se fazer um anime era “herdado” do grupo estrangeiro, o trabalho que o brasileiro iria ter seria apenas de traduzir e revisar a legenda – o processo de temporizar e encodar, que são dispendiosos, não eram mais necessários fazer a esse ponto (a não ser que você estivesse legendando algo inédito). Assim, muitas vezes, uma mesma pessoa poderia fazer tudo. Você próprio poderia pegar um anime legendado em inglês, extrair a legenda, traduzir, recolocar e distribuir em um tracker. Mais simples, impossível.

Apesar de ser, entre as pessoas antigas, conhecido por fazer chacota de erros que são… digamos, curiosos, não me deterei a isso neste artigo. Para tal, basta ver esta apresentação com a seleção de vários erros divertidos; também existe um pacote gigantesco com “Os Melhores Fansubs da Galáxia” que foi coletado ao longo de diversos anos por inúmeras pessoas, mas reunidos neste pacote pelo Gustavaum. Divirtam-se e depois me deem o feedback 😉

Outra vantagem do MKV é o fato de que, como a compressão se tornou mais eficiente, é possível reduzir ainda mais os tamanhos dos arquivos a algo aceitável – o grupo Anime No Sekai (AnimeNSK) é famoso por fazer seus próprios releases em torno dos 100 mb, de forma que baixar de grupos de reencoders acaba perdendo o sentido.

Como falei anteriormente, minha saga parou no GeA-Subs (o nome do fansub proveniente do Geração Anime, que por sua vez era vinculado a uma rede de reencoders denominada Experiment). A reputação de um fansub que não tinha ninguém com experiência e que ainda era proveniente de um website de reencode era tão ruim, mas tão ruim, que o grupo não durou mais que três meses. E três meses bem conturbados, um dos administradores saiu plagiando a tradução do KI-BA (isso porque éramos um grupo de One Piece) de outro grupo na cara dura ao ponto que fez rolar altas confusões, fora o nível de qualidade das legendas que faria qualquer um dar boas gargalhadas nos dias de hoje.

Puxei uns amigos de outros locais e criei um grupo para mim próprio, o Kawarimi (que, diga-se de passagem, só descobri que me sugeriram esse nome por causa do jutsu de Naruto). Outros grupos, como o Eternal Animes e o Bruthais, também surgiram nessa época. Como qualquer outro grupo, abríamos para doações e eu, sendo de menor na época, releguei os cuidados disso para outra pessoa. Tinhamos feito um acordo com um gringo de que ele distribuiria nossas séries pelo valor de 20 dólares mensais. Eu dividia isso com outro membro do grupo quando não tinha doações, mas em geral sempre tinha e sobrava. O mais legal é que, num belo dia que fui conferir a tabela de dados junto aos e-mails, percebi que o maldito havia surrupiado do grupo uns belos 50 reais, mas nunca fui tirar satisfação.

Um dos problemas que aconteceram comigo foi quando eu fui expulso de meu próprio grupo e fiquei com as senhas do website. De alguma forma, conseguiram meu telefone residencial (podiam ter olhado no meu Orkut, mas soube depois que fizeram uma engenharia social dos infernos para conseguir) e ligaram para minha mãe para que ela me fizesse ceder isso. No fim das contas, retomei o controle do grupo e expulsei meio mundo de gente. Após um tempo, fui convidado a ir para um grupo estrangeiro e, saindo do Kawarimi, lá fiquei por um bom tempo.

Uma das maiores fontes de problemas nos fansubs é a gestão de pessoas; pode soar como uma empresa, mas quase que é assim se você quer que funcione. Ao longo dos anos, já lidei com pessoas de 13 até gente com mais de 46 anos. Essas pessoas vivem em locais diferentes, possuem mentalidades diferentes e tiveram vivências diferentes. Tudo isso causa uma quantidade gigantesca de conflitos – já ouvi falar de gente que chegou ao ponto de ameaçar a outra de morte e, certas pessoas, tiveram a própria vida real excessivamente exposta na internet, o que não é legal. Alguns grupos gringos vão longe ao ponto de estabelecer uma “taxa de produtividade” para os membros – como se ninguém tivesse o que fazer na vida – ou de praticamente forçar a uma pessoa a participar de uma determinada série que não é de sua afinidade (convencionou-se, no entanto, que o tradutor tem prioridade na escolha do que quer legendar, os outros membros apenas seguem).

Outra coisa interessante que aconteceu ainda em 2006 foi o fato de algumas pessoas começarem a enxergar um fansub como um empreendimento real. Um grupo chamado Kanshin, dedicado a legendar todos os episódios de digimon, tentava estabelecer uma marca própria – para tal, nos posts de lançamento, tentava se referir aos visitantes como “kanshinianos” e fazia um website realmente amigável, em que tudo era direcionado ao usuário final e que provavelmente faria inveja a qualquer designer da Apple. O ápice disso foi a criação de um mascote para tudo. Em algum ponto que legendaram Card Captor Sakura, eles conseguiram fazer a proeza de lançar pelo menos 10 versões diferentes do mesmo episódio com “alteração na legenda e novos efeitos” – ou seja, quando a Sakura convocava a Carta Vento, aparecia um tornado rosa sob a legenda e a explodia (duvida? veja aqui. Essa loucura por efeitos era tão intensa que, em certo ponto, eles chegaram a fazer trailers para anunciá-los. Isso a parte, a ideia de empreendedorismo em fansub não vingou, mas não morreu aqui, como também será vista mais a frente.

Já em 2008, com o Haitou a pleno vapor aqui no país, aconteceu uma coisa interessante: participei de um grupo denominado Chihiro, no exterior. A ideia deles era simplesmente a de “dar uma opção” para quem quiser ver o anime o mais rápido possível, e fizeram isso com os primeiros episódios de Code Geass R2. Aqui no Brasil, o episódio passava às 5 da manhã de um domingo (que correspondia 5 da tarde lá no Japão), então era esse horário que eu tinha que acordar para ajudar. Próximo às 8 ou 9 do mesmo dia, o episódio já estava lançado para quem quisesse assistir.

Isso foi uma mudança de paradigma muito forte.
Naquela época, “speedsub” era quem conseguia pegar um anime, legendar e soltar no mesmo dia. Agora, a “competição” foi para a escala de horas. Alguns grupos não ligavam para isso (mas mesmo assim, a velocidade deles melhorou consideravelmente), mas a grande maioria, sim, porque, afinal, quanto mais o trabalho fosse visto, melhor (você prefere ser visto por 50 ou 5000 pessoas? É egocêntrico, mas trata-se de um ponto de vista interessante).

É desnecessário dizer que o que era feito pelo Chihiro tinha uma qualidade que era no mínimo sofrível, tanto que o grupo ainda sofre com o passado até hoje, mas ainda assim era algo minimamente assistível. Lembro-me que em Macross Frontier, outra série em que fizeram essa corrida, pessoas comentavam em fóruns que assistiam em raw para “ver o que estava acontecendo”, a versão do Chihiro para “ter uma leve noção do que estava acontecendo” e a do gg (outro grupo) para “entender de fato o que acontece”. O Chihiro, em seu início, fez com que outros grupos tivessem que se reorganizar de forma a “competir” para não perder downloads (reitero: muitos se importam com isso) e, como vários grupos possuem membros em comuns, a mudança para se ter mais eficiência se estendeu a praticamente todos os grupos principais e maiores.

E isso chegou ao Brasil na forma de animes ainda mais rápidos para serem traduzidos. Grupos surgiam e desapareciam todo mês. Muitos, mas muitos grupos competiam desesperadamente para ver quem postava o primeiro lançamento de uma determinada série na Anime Blade. Óbvio que a qualidade das legendas eram péssimas ao ponto de mesmo quem gostava de prestigiar determinados grupos brasileiros, preferia ou esperar mais tempo ou simplesmente ver em inglês.

Acho que posso citar dois episódios dessa época que me marcaram em especial e que ilustram bem esse período: o do piracicaba97 e o do Spiido. O primeiro grupo pertencia a uma única pessoa de apelido homônimo (e que, suponho eu, reside na cidade de Piracicaba e nasceu no ano de 1997).

Na verdade, o engraçado era que esse indivíduo só se preocupava em legendar hentais, e a tradução era no mínimo cômica. Um dos hentais que cheguei a ver era o “Hot for Teacher” que carinhosamente foi traduzido como “Fessora Quente Demais” e ainda tinha o lema de caipira faz fansub também. Nem me vem a cabeça os nomes que ele inventava para as zonas erógenas no momento H, mas era engraçado suficiente para você querer ver o hentai pela história, e não pelo conteúdo de fato dele.

Citei esse exemplo porque pessoas que eram dessa época certamente lembrar-se-ão, mas pessoas como esse jovem que estavam divulgando animes para o Brasil. Obviamente, elas faziam isso com boas intenções, mas mantenho a máxima de que o fato de algo ser voluntário ou de graça não necessariamente precisa ser ruim ou mal feito; se você olhar o pacote que postei mais acima, verá que boa parte dos erros são apenas engraçados devido a descuidos, mas nada muito grave. E foi aí que, atendendo a sugestões, eu criei um blog pessoal. Ele tinha a finalidade de sair criticando todos os grupos que estavam fazendo más legendas; na verdade, olhando para trás, a crítica não era totalmente destrutiva – ela tentava ser engraçada ao ponto de que a própria pessoa que fez a legenda notasse que era possível melhorar, e daí que começou a ideia do pacote. Óbvio que falhei miseravelmente nesse propósito, mas minhas intenções eram as melhores (ou não).

Modéstia a parte, fico feliz em dizer que meu blog, com minhas criancices, de certa forma, ajudou a mudar em parte o fansubbing do país e conseguiu irritar muita gente. Prova disso é que, mesmo sem postar nada há mais de 5 anos, ele ainda recebe visitas e o comentário mais recente (sem ser spam) tem menos de 5 meses de idade. Todos os posts possuem mais comentários do que a muitos websites grandes, o que é um feito por se tratar de algo direcionado a um nicho bem específico. E os gringos só vieram ter uma ideia similar a esta somente em 2011/2012. Não estarei divulgando o link porque muito do que escrevi foi proveniente de uma fase de imaturidade e, além disso, o imageshack deletou praticamente todas as imagens existentes lá (inclusive o banner, pelo que vi).

Enfim, num determinado ponto nesse blog, separei os grupos em “Eixo do Bem” e
“Eixo do Mal”. O Eixo do Bem eram os grupos denominado “ruins” e o Eixo do Mal eram os grupos “bons” (basicamente, meus amiguinhos) os quais supostamente eram injustos ao criticarem os grupos ruins, que se faziam de vítimas, por isso os nomes. Na prática, eu era um adolescente sem ideias e inventei isso.

Pessoalmente, sempre achei que ninguém se importava de verdade com essas denominações, até que vocês próprios podem tirar as conclusões do nível de comentários existentes em alguns dos posts:

38. Koutta-kun – dezembro 4, 2008
Eu sou dono do Silex-animes e o raijenki é um merda…EIXO DO BEM NA VEIA RAIJENKI VIADO, FAZ UM QC DO SILEX-ANIMES VC NUM ACHA 1 ERRO…É PERFEITO!!!

30. Neo-Geo – janeiro 4, 2009
Deviam é arrumar uma mulher…

E daí, com esse blog, essa segregação realmente pareceu afetar a cabeça de algumas pessoas. Um desses grupos que estavam inclusos no famigerado “Eixo do Bem” era o Spiido, o qual era carinhosamente apelidado (não foi criado por mim, juro) de Cuspiido. Por coincidência do destino, era meu passado batendo à porta.

O Spiido é eternizado por uma pérola no mundo dos fansubs, que é exatamente esta aqui. Se você sabe o mínimo de inglês, certamente entenderá sem precisar entender o contexto; obviamente, eles caíram na minha malha fina e foram parar no tal do blog; principalmente por jogarem nos créditos da legenda coisas como “Produção da OP” (tem alguém que trabalha num estúdio?) e “Animação da Série”. Um dos membros ficou tão tenso com isso que saiu fazendo ameaças bem carinhosas nos comentários – e, obviamente, ameaça, independente de ser na internet ou não, é passível de caso de polícia, mas relevei. De alguma forma, acabei descobrindo que o fundador desse grupo era justamente um conhecido meu bem antigo (co-fundador do Kawarimi) que estava querendo se “vingar” de mim ou coisa do tipo (algo que nunca entendi nem vou entender) e daí após uma conversa, ele se arrependeu e “veio para o meu lado”, deixando o grupo antigo desamparado e não durando muito tempo após isso. O Spiido era um grupo de tamanho moderado quando tudo isso aconteceu, e a falta de liderança simplesmente o destruiu.

Sim, muito do que falei até agora soa ridículo e até mesmo egocêntrico. Mas as pessoas são humanas, e é assim que elas são.

Ainda sobre grupos e essa cisão tosca, existia outro grupo chamado Shinka, que fazia parte do “Eixo do Mal”. Eu tinha uma certa proximidade com as pessoas de lá e, de certa forma, ajudei a legendar algumas pouquíssimas coisas por lá. De qualquer jeito, tenham em mente isso para o desenrolar dos fatos que citarei mais a frente: o administrador principal do grupo sumiu e alegou que estava foragido porque pegaram ele fazendo um “gato” de internet ou coisa do tipo. Ele não tinha motivos para mentir, então muita gente próxima (praticamente todos) acreditou nele.

Continuando a história, em 2008, mais um baque nos grupos estrangeiros afetou os brasileiros e mudou parcialmente a percepção de cultura de tradução que temos. Um vídeo brotou nos fóruns do AnimeSuki e rapidamente se espalhou entre os fansubbers: era o vídeo do OtaKing (em cinco partes). Em tese, ele contestava o modelo de tradução daquela época (ao qual havia palavras excessivamente em japonês, typesetting que “estragava” o anime, dentre outros) e pedia a localização da tradução, deixando que ela fique mais fluida e que sejam adaptadas os termos. A maioria esmagadora dos grupos estrangeiros acataram tais sugestões e, por consequência, tais mudanças chegaram aos grupos brasileiros pelo simples fato de que eles se baseavam naquelas traduções para fazer as suas próprias.

Paralelo ao Haitou, surgiu (ou já existia, não lembro, mas vale citar) outro tracker de animes, o fansubber.org. Ele era infinitamente menos popular que o Haitou, principalmente pela quantidade de grupos distribuindo por lá, mas ficou ativo por um bom tempo mesmo quando o primeiro se foi. Grupos como o OMDA e o ANSK lançavam animes continuamente em seus próprios trackers de anime e evitavam se envolver em qualquer tipo de incidentes; mas como eles eram/são relativamente “fechados”, pessoas que queriam entrar em fansubs se viam obrigadas a entrar em grupos menores ou criar o seu próprio. Creio eu que levou bastante tempo até um grupo “pequeno” ter a permissão de distribuir no tracker do OMDA; no tracker do ShaKaw, existia uma burocracia muito grande e no do ANSK, imagino que ninguém até hoje distribuiu por lá, além deles.

Outro fato interessante que ocorreu mais para o final de 2008 foi quando um website denominado Crunchyroll começou a ficar mais em evidência. Eles legendavam Naruto oficialmente e lançavam a legenda cerca de trinta minutos depois do anime passar ao ar no Japão. Assim sendo, o grupo mais famoso do planeta – o Dattebayo – desistiu de legendar Naruto Shippuuden e em breve desistiria de legendar Bleach. E aqui começa o declínio do ato de fansubbing como um todo.

Não sei muito bem os de algumas partes porque estive ausente durante esse tempo, de forma que alguns trechos são meramente fatos do que me contaram. Mais ou menos no final de 2008 pro início de 2009 começou a surgir um grupo para legendar a nova temporada de Hajime no Ippo que acabara de ser anunciada. Na realidade, mesmo tendo nascido para essa série, em menos de 3 meses, o Punch Fansub já estava legendando inúmeras séries e ficando bastante popular por causa da rede Project, que divulgava seus animes. Até que começou Fullmetal Alchemist Brotherhood.

Eu não legendava mais, estava longe de tudo isso. Ao que sei, haviam pelo menos 6 grupos legendando a mesma série e competindo entre si; isso durou pelos 13 primeiros episódios. Num belo dia, um tradutor me pede para simplesmente legendarmos também a série e lançar antes de todos como forma de “trolar”. Sem nada a perder, concordo e começamos a planejar a logística.

Basicamente, Fullmetal Alchemist: Brotherhood passava as 5:00 da manhã do domingo aqui no Brasil. Eu tinha um conhecido que morava no Japão e secretamente gravava séries para fansubs estrangeiros, mandando tudo sob uma criptografia pesadíssima; após uma longa conversa, ele concordou em me ajudar. Além disso, combinei com todos para acordarmos às 5:30 da manhã, logo após o episódio ir ao ar, deixei um tradutor de reserva em caso de imprevistos e deixamos a tradução da abertura pronta. Isso era um sábado e esperávamos que tudo desse certo no domingo.

Deu errado, e muito errado. De cara, a abertura era outra totalmente diferente. O tradutor principal não tinha tanta experiência com isso, de forma que foi bem lento e acabamos dividindo o trabalho entre dois tradutores que se encontravam perdidos porque estavam traduzindo uma série a partir do episódio 14 sem nunca ter visto do 01 ao 13. A velocidade de conexão do servidor para baixar o episódio bruto também dificultou – o único ponto bom era que Fullmetal Alchemist possui scripts embutidos ao episódio, as famosas Closed Captions, de forma que o processo de tradução ficou pelo menos mais simples (afinal, traduzir com base em um texto é mais fácil do que traduzir com base no ouvido).

Mesmo o desastre no episódio rendeu uma velocidade maior e uma tradução superior à dos grupos que estavam fazendo a mesma série naquele momento. O sentimento geral era de que deveríamos pelo menos fazer algo decente na forma mais rápida possível – um dos tradutores, em especial, se sentiu indignado quando assistiu um episódio de FMA:B na casa de um amigo e viu uma quantidade brutal de erros de tradução que modificavam o sentido original da frase. Inclusive, fizemos o favor de eternizar uma screenshot, e tudo isso foi muito legal.

Com 1 mês depois da entrada de meu grupo, o morningspeed (em clara alusão ao horário que a legenda era lançada), a brincadeira do Fullmetal Alchemist se resumiu basicamente a dois grupos: o morning e a parceria entre três outros (PA, Punch e Animeplanet). Tenho recordação do Zettai também, mas este era lento e lançava somente no tracker do ShaKaw, então não conta muito.

O fato é que esse acontecimento se repetia todas as manhãs para ver quem postava no Haitou e no Anime Blade primeiro. No auge dessa competição, os domingos se tornaram verdadeiras ciberguerras, e posso citar de exemplo:

  • Certa vez, todos os membros do meu grupo sofreram um ataque de DDoS, estando impossíveis de sequer conseguir conectar à internet.
  • Em contrapartida, nós possuíamos a cara de pau de encodar e distribuir nosso episódio dentro das máquinas do próprio “adversário”, as quais hackeamos com muito orgulho. Em um determinado ponto, estávamos usando as máquinas de vários outros grupos (lembro que o do Hinata-Sou foi um dos casos mais duradouros) para ajudar a fazer nossos episódios.

O problema não era a quantidade de downloads, que era impossível de se superar por causa da parceria deles com outros websites, mas sim o fato daquilo ter virado algo extremamente pessoal entre nós e o Punch (nada contra você, lavador de sementes), principalmente quando dois fatos vieram à tona:

  • O líder daquele grupo era justamente o fundador do Shinka, que deveria estar foragido e traiu a confiança de muita gente.
  • Essa mesma pessoa conseguiu tirar em torno de 20 mil reais (ou dólares, realmente não lembro) em cerca de 3 meses através de patrocínios de links como Megaupload (antes de fechar), Sendspace e afins. Fora as doações exorbitantes que se pediam por lá – algo em torno de 750 dólares.

Não nego que o cara provavelmente deixaria muita gente do Vale do Silício com inveja de conseguir monetizar tão bem algo que supostamente deveria ser voluntário. Mas… isso é extremamente anti-ético e contra todos os princípios de “divulgar animes” – mais do que isso, existiam pessoas que faziam de graça e apenas por que gostavam daquilo, enquanto havia outra pessoa claramente se aproveitando delas; algumas sabiam, mas pouco pareciam se importar.. O desfecho? Absolutamente nenhum, cada um continuou com seu caminho, mas aposto que os membros de meu grupo são muito mais felizes hoje em dia.

Enquanto isso, no Haitou, tudo ia bem e os administradores faziam vista grossa para muita coisa do que acontecia. Aos poucos, aquilo se tornava um local de bagunças. Um ser maléfico postou o episódio de Code Geass R2 25 com uma certa imagem-spoiler que irritou muita gente (diga-se de passagem, o morningspeed surgiu com basicamente as pessoas que legendaram Code Geass R2 25 e D. Gray-man Final em tempo recorde, mesmo a nível mundial), muitos comentários de releases de séries se tornavam verdadeiras badernas (chegava a um ponto em que se começava a postar imagens gigantescas de satélite) e o servidor começava a apresentar mais instabilidade. O auge dos problemas se deu quando alegadamente o disco rígido do servidor queimou e “tudo se perdeu”. Não tenho mais memória desse fato, mas pelo que me lembro, foi descoberto que o tracker originalmente fechou a pedido do administrador; novamente, mais um que saiu carregando dinheiro alheio. Na realidade, mesmo o preço do servidor (localizado na Alemanha, em uma empresa chamada Hetzner) já era excessivamente caro e desnecessário para a época, de forma que, ao longo do tempo, dúvidas foram surgindo quanto o uso dos recursos doados.

Entre o fim de 2009 e o início de 2010, o Haitou fechou e a equipe antiga tentou segurar o público prometendo o Haitou 2.0, que nunca se concretizou principalmente devido à falta de conhecimento técnico. Com isso, os fansubbers brasileiros perderam seu segundo lugar de distribuição pela segunda vez em menos de 10 anos. Alguns grupos moveram para outros trackers menores (Fansubber, OMDA, ShaKaw, etc) e outros resolveram participar de trackers abertos.

É de relevância citar que, nessa época, houve a primeira prisão no Japão devido ao compartilhamento via Perfect Dark. Para quem não sabe, o Perfect Dark é um dos softwares populares ao quais fansubbers costumam arranjar ISOs de DVDs/Blurays além de rips da televisão. Outros programas populares são o Winny, Share e Utatane. Fato que essa prisão começou a gerar tanta comoção entre fansubbers que moram no Japão quanto a do LegendaZ causou aqui no Brasil.

O fato era que o Haitou fechou e eu estava com Fullmetal Alchemist a pleno vapor na época, lançando toda semana. A minha alternativa foi criar um tracker para mim próprio. O amigo de um membro do morningspeed tinha um domínio “Animetracker.org”; unimos o útil ao agradável e, como o sistema do Haitou era de código-fonte aberto, dei um jeito de traduzir todo o sistema novamente, fizemos algumas modificações (como incluir um sistema eficiente de fansubs e integrar as contas do fórum ao tracker) e lançamos.

No momento do lançamento, existiam várias preocupações, mais uma era a mais evidente: a possibilidade de ataque virtual em cima do tracker. Oras, para quem estava travando ciberguerras dominicalmente e tinha problema com muitos outros grupos, isso era de se esperar; e serviços como CloudFlare sequer existiam ainda. Logo, prevendo isso, fizemos uma pequena engenharia: colocamos uma máquina “segura” (no caso, a que eu detinha formalmente) como o banco de dados e fizemos um sistema em que as pessoas eram redirecionadas para outras máquinas (que foram obtidas de forma ilícita). Dessa forma, se derrubassem uma máquina, outra apareceria e manteria o sistema no ar e o database estaria seguro simplesmente pelo fato de que não haveria como derrubá-lo porque o endereço na máquina que a contém ficaria virtualmente oculto. Sistemas como esse são usados por empresas como o Google, e é formalmente denominado de Round-hobin DNS.

O ataque nunca veio, mas a infraestrutura se manteve por algum tempo. Dei poderes de moderação a muita gente conhecida minha, que sabia que eram “zueros”. O poder é algo que muda o ser humano, que não o faz querer perder, então essas pessoas teoricamente andariam na linha pelo menos e me evitariam problemas. Tudo transcorria bem e, em determinado ponto, lembro que passou a Copa do Mundo de 2010 e fazíamos bolões da copa e afins. Algum tempo depois, simplesmente decidi fechar o tracker por não dispor mais de tempo para cuidar e pelo fato de todo os sistema ser ineficiente demais – uma decisão totalmente egoísta, mas sábia. Antes disso, tentei remodelar fazer uma versão 2.0 a partir de um sistema denominado Gazelle (usado pelo what.cd), mas a conversão do banco de dados e adaptação do sistema para algo de anime (originalmente era música) se provaram tarefas extremamente complexas as quais vi que não valia investir meu tempo, e deu no que deu.

Os grupos de tamanho médio, como o Eternal Animes, resolveram distribuir em trackers como o do OMDA. Outros, foram para o ShaKaw. Outros, continuaram no Fansubber. E outros migraram para o Nyaa. No mais, à esse ponto, o fansubbing de anime já havia parado de chamar tanta gente quanto antes. Óbvio que, vez por outra, apareciam algumas pérolas como o “Commie Br”, a qual o administrador era um guri de 12 anos que dizia ter permissão do Commie para isso (óbvio que isso não havia acontecido). Mas sem um método central de distribuição, boa parte dos grupos de médio e pequeno porte tenderam a se estagnar e desaparecer com o tempo.

Mas foi em 2011 que veio o primeiro golpe letal no fansubbing brasileiro: o Anime Blade, através de seu dono (Yusuke_Mega), anuncia que o website estararia fechando as portas. Era normal de se esperar isso, já que é necessário atualizar o site e manter suporte aos fansubs; além do mais, as circunstâncias pessoais da criação do site em 2001 certamente são diferentes das em 2011. O website prorrogou por mais um tempo através dos cuidados de outra pessoa (se me lembro bem, foi o administrador da anPlus) ao qual tentaram refazer o layout e reviver o website sem muito sucesso. No fim, mais recentemente em 2014, um dos websites mais importantes do país na divulgação de animes perde seu banco de dados dos últimos 3 anos (existe um backup de toda a tabela do Anime Blade dos anos de 2001 a 2011, basta procurar).

Nesse meio tempo, existia uma movimentação para iniciar o Crunchyroll no Brasil. Trazer animes legalmente era um sonho de muitas pessoas, e este é um mercado óbvio para tal. O primeiro sinal que o CR estava chegando no país foi quando eu (desculpa ser egocêntrico) descobri que o domínio brasileiro da empresa estava diretamente nas mãos da JBC. Em plena madrugada, fiz um post legal para o (hoje extinto) Subete Animes ao qual virou notícia em praticamente todo website de anime. Fiquei sabendo depois que, em uma conferência da JBC, me apelidaram de “McGyver” por descobrir tal furo 😛

Engraçado que havia um fortíssimo boato, que não sei de onde surgiu, que a JBC iria legendar UN-GO juntamente ao Crunchyroll. Um dia antes, tive a confirmação que isso não ia acontecer, então registrei os websites legendashorriveis.org e legendashorriveis.info, ripei a página do HorribleSubs original e arrumei mais 2 tradutores. No dia que saiu UN-GO, pegamos o script, dividimos em três partes e… traduzimos um episódio inteiro em 15 minutos. Larguei uma notícia no Twitter que “alguém” havia criado o LegendasHorriveis e que o UN-GO estava lá. Colou. Teve gente que realmente acreditou e, cá entre nós, as legendas estavam pelo menos em um padrão aceitável. Óbvio que isso foi rapidamente desmentido, mas continuamos fazendo isso até cansarmos de fato (e eu mantive o website em minhas mãos sem uso algum até hoje em respeito ao Crunchyroll Brasil).

Mas enfim, o ponto é que essa parceria não rolou e o Crunchyroll resolveu chegar ao país por conta própria. Por alguma coincidência, acabei conhecendo o responsável pelas operações (um tuga; por isso que a conta do twitter usa “Crunchyroll.PT” e não “Crunchyroll.BR”, é questão de orgulho dele) e fiquei incubido de arranjar pessoas decentes para participar dessa parte inicial. Eu o fiz e basicamente a empresa não demorou entrar em operações (e logo em seguida, fui mandado embora por uma pequena besteirinha que fiz, mas, com o futuro, descobri que mesmo se quisesse não haveria como eu ficar de qualquer jeito por lá).

A maioria das pessoas vinculadas ao Crunchyroll são limitadas por algo que chamamos de NDA (Non-Disclosure Agreement, ou Acordo de Não-Discussão) que basicamente as proíbem legalmente de vazar qualquer coisa relacionado ao que legendam (como o anime da próxima semana que elas veem antes de vocês) ou mesmo relacionado a projetos e afins. Por questões éticas, falarei apenas o que pessoas (a maioria do CRUS) que não estavam comprometidos por essa restrição me contaram, apesar de eu próprio já saber de boa parte do processo enquanto eu estava lá.

Em tese, fazer parte do Crunchyroll é fazer a mesma coisa que se fazia como fansubber, porém tendo um prazo (lado ruim) e ganhando para isso (lado bom). Os programas são os mesmos e o “salário” é com base na produção, ou seja, quanto mais você legendar, mais você ganha – mas não espere ficar rico com isso. Em geral, recebe-se o vídeo do episódio de uma semana a até algumas horas antes do prazo; muitas vezes juntos ao script de falas. É por isso que certas séries atrasam: ou a legenda não ficou pronta a tempo ou porque deu algum problema no envio da série para o CR.

As séries também não vazam porque no vídeo que as pessoas mexem tem um “Vídeo para nome-da-pessoa” bem grande (acho que isso é recente, vi em uma screenshot de um fórum), então se o episódio final de Fate/stay Night aparecer antes do tempo, você facilmente saberia quem é o responsável por ter vazado. Outra coisa que muita gente se pergunta é em relação a questão das músicas: não se traduz a OP/ED normalmente porque os direitos das músicas pertencem a alguém diferente do estúdio, de forma que é necessário solicitar a aprovação da tradução aos detentores dos direitos autorais. Quando isso acontece, o anime já está passando (por exemplo, em Selector spread Wixoss, a tradução da OP/ED só foi aparecer no episódio 8).

A maior vantagem do Crunchyroll, entretanto, é praticidade. A grande maioria dos usuários não querem lidar com IRC, Torrent ou ficar em websites cheio de spams e afins. O fato de você simplesmente poder pagar para ver coisas sem se preocupar é algo incrivelmente bom, e o Netflix funciona nessa base também. Se o CR legenda tudo de forma relativamente decente, lança poucas horas após a série ir ao ar em média, qual o sentido de legendar a mesma coisa?

Outra coisa que chegou a ocorrer e que deu um baque nos grupos foi a queda do Megaupload. Uma quantidade gigantesca de grupos disponibilizava (ou arquivava) seus lançamentos por este website, que subitamente foi fechado e perdido. Automaticamente, inúmeros grupos fecharam as portas por não possuir mais determinado lançamento ou levaram bastante tempo para se recuperar disso.

No entanto, realmente creio que o maior golpe, mesmo que seja simbólico, foi o deferido pelo OMDA. Aquele grupo que, mesmo sem fazer mais nada, era certo de lançar pelo menos um episódio por semana acabou de terminar seu mais longo projeto e, simplesmente, entrou em hiato permanente com uma missão cumprida. Certa vez, o tradutor falou a minha pessoa que ele já tinha parado de gostar de Bleach há tempos. Na verdade, achava um saco. O que movia ele a traduzir essa série era o fato de que aquilo, ao longo de 8 anos toda semana, havia se transformado em um hábito. E ficar sem fazer isso era ficar sem uma parte dele.

CONSIDERAÇÕES E FUTURO

A distribuição de animes, principalmente os antigos, legendados em português por fansubs agora é totalmente descentrada em diversos lugares e a divulgação se encontra bastante complicada. O fansubbing de anime, da forma que se encontra no Brasil está se encerrando, com alguns pouquíssimos fansubs grandes continuando suas atividades e, mesmo assim, estagnando aos poucos.

Em determinado momento de 2010, escrevi que a tendência é que o número de fansubs e fansubbers se reduza bastante, e é isso que vem acontecendo nos fansubs estadunidenses e é o que está acontecendo no Brasil. Você é capaz de contar nos dedos quantos fansubs estão postando lançamentos com alguma frequência no TokyoTosho e, mesmo esses, deve-se perguntar quantos fazem uma legenda do início ao fim (da tradução até o encode, passando pela temporização).

Oras, qual o sentido de legendar algo que já está sendo legendado? Por mais que as legendas sejam medianas (e, soube que algumas empresas como a Aniplex demitiram tradutores “ruins), a tendência é só melhorar. Quem assiste anime não está preocupado em detalhes da preservação da cultura japonesa ao máximo, mas simplesmente entender o que está sendo dito. No momento que escrevo aqui, Gintama chegou ao Netflix e One Piece já chegou ao Crunchyroll Internacional, o que indica que provavelmente chegará ao Brasil também. Com os animes mais populares do planeta e que tradicionalmente são os que puxam mais usuários, o que restam aos fansubs fazerem?

O que sobrou? Traduzir animes antigos ou outros tipos de mídias. No entanto, é fato que mangás, light novels e visual novels estão longe de ter popularidade similar à de animes, principalmente devido à questões culturais do brasileiro, como a da leitura. Outro problema também que não é nem preciso comentar é a dificuldade de se achar séries antigas para se legendar – neste caso, os vídeos sem legendas principalmente.

Os gringos possuem o BakaBT como método de distribuição de animes, com regras fortes e que faz com que praticamente todo torrent esteja decentemente semeado, e isso falta no Brasil. Ainda é possível recorrer ao NyaaTorrents, mas isso se torna impraticável quando se deseja procurar um arquivo de um ou dois anos atrás. Mesmo eu não tenho todas as séries que legendei guardadas comigo, assim como conheço inúmeras pessoas na mesma situação.

Antes que me crucifiquem e digam nos comentários que estou me exibindo ou que sou uma estrelinha brilhante, a história está no meu ponto de vista simplesmente porque foi o que passei. Durante um tempo, participei mais em vários grupos estrangeiros e fiquei de fora dos grupos brasileiros, apenas acompanhando-os, então talvez não saiba de um ou outro evento, apesar de que minha “rede” em geral se estende por todo canto. Fansubs mais velhos, em geral, não se deixam afetar muito pelo tempo (caso do AnimeNSK e do OMDA), mas mesmo que os maiores grupos tenham uma grande quantidade de lançamentos, boa parte dos animes dos anos 2000 até agora foram feitos por diversos anônimos de inúmeros grupos que não citei – e como sempre fiz parte de grupos desse tipo, imagino que seja interessante contar esse lado da moeda.

Mas acredito que os fansubs por si só não possuem todo o mérito de ter fortalecido a “cultura otaku” japonesa aqui no país. Em especial, esse mérito se dá aos famigerados reencoders que distribuem por aí tudo; principalmente em uma época cuja velocidade média era baixíssima e poucas pessoas podiam se dar ao luxo de pegar episódios de 150 mb de tamanho (ou mesmo acessar redes de irc, problema que incorre mesmo nos dias de hoje), e a grande quantidade de blogs relacionado ao assunto e eventos de anime só ajudam a fortalecer isso ainda mais.

Gostaria de terminar este texto fazendo uma alusão à um certo texto emblemático e que li há muito, mas muito tempo atrás. O mauritz, fundador da BrasNET, deixou claro em seu texto de encerramento que aquele projeto havia envolvido apenas pessoas comuns – elas trabalhavam, tinham suas famílias e, assim como outras, se divertiam. Elas não ganhavam um centavo sequer para administrarem aquilo, mas tiveram a oportunidade de conhecer um lado da internet que pouquíssimas pessoas já tinham visto. Conheceram pessoas bastante diferentes, mas que eram fáceis de se lidar. E, justamente por ser mantido por pessoas comuns, era fácil desestabilizar aquele projeto. Ninguém possuía fortunas multimilionárias de empresas para aguentar todos os problemas que aconteciam, mas mesmo assim se tentava o melhor. Até que chegou uma hora que o projeto cedeu e, com muita tristeza, acabou.

Muitos fansubs são assim. Muitos fansubbers já tiveram essa felicidade e tristeza de passar por isso. É uma experiência que, por mais que tenha sido uma vez, você vai sempre falar para si próprio “ah, eu já legendei antes”.

E é isso.
– Raijenki

Raijenki é um ex-fansubber que não tem o que fazer a não ser escrever muros de textos gigantes que muito provavelmente não serão lidos e que pareçam ser egocêntricos demais. Com este texto, ele gostaria de agradecer enormemente às pessoas de inúmeros grupos que se dedicaram ao longo dos anos para trazer animes do Brasil. E, obviamente, agradecer às pessoas que começaram como companheiros de equipe e se tornaram verdadeiros amigos ao longo dos anos: Jacques, Gustavaum, soulstaker, Ket, manju, xdead e Sutai.

Publicado por

Daniel Araújo

Redator-chefe do próprio blog. Escreve bem sobre absolutamente nada, tem opinião sobre absolutamente tudo. Ninguém se importa mesmo assim.

6 comentários em “Uma breve-longa história do fansubbing brasileiro”

  1. Poxa, fiquei com pena que um texto desse tamanho, e até que bem escrito, não tinha nenhum comentário.

    LZZ aqui. Encontrei isso pesquisando sobre o meu ex-fansub, o Dattebayo Brasil (provavelmente por causa das citações ao Dattebayo) e aprendi muita coisa que eu não sabia que tinha acontecido. Afinal, a gente era um grupo bem excluído na área, nem sequer fomos citados no texto.

    Vários dos nomes dos fansubs citados eu conhecia, mas, tirando o EA, nunca conheci nenhum integrante deles.

    Uma nota: o tamanho dos arquivos AVI eram de cerca de 175MiB para caberem certo 4 episódios em um CD-ROM de 700MiB, não era por causa da qualidade do vídeo original nem por causa das velocidades de internet.

  2. Ótimo post. Excelente para quem não viveu esta época entender (ou tentar) situações de desistência dos poucos que ainda estão envolvidos na distribuiçaõ gratuita dos animes.

  3. Brilhante texto. Fui tradutor do Tnnac (liderada por Rikubens) por algum tempo (tempo do IRC)e amigo próximo da tradutaora de Slam Dunk (honorável Claim). Realmente, havia um senso de pertencimento grande e de satisfação em fazer parte dos fansubs e fazer um trabalho bom. Lembro do tempo dos karaokes geniais.

    É uma pena que essa paixão por entregar o trabalho mais completo e perfeito possível se perdeu. Com o Crunchyroll e com a geração todyinho que sabe criar muito pouco e só quer absorver as coisas com seus smartphones e redes sociais, é realmente lamentável pensar que nunca mais veremos subs feitos com tanto primor.

  4. Putz, por pura curiosidade depois de assistir um ep de One Piece legendado baixado pelo mega em pleno 2019 fui atrás da histórias de fansubs e etc… e acabei lendo esse puta texto e descobrindo o quão grande era a magnitude de letras por trás de um simples vídeo.

    Parabéns aê por ter feito isso por tanto tempo, mesmo sem nunca ter tido ligação com esse mundo à parte da internet brasileira eu acho que esse texto deveria ser lido por muita gente que gosta de assistir um shounemzinho clichê de vez em quando.

  5. Que texto maravilhoso, fui do OMDA logo no começo, quando ele nasceu do fórum do OMDA original, que era o fansubber de VHS do Ranma em porto alegre.

    Que saudade, que texto lindo! Obrigado por escrever

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