Conversas com CEOs

Quando comecei a pesquisar sobre Consultoria, um dos primeiros textos que li sobre o assunto referia-se a uma pessoa que, quando queria conhecer alguém, chamava outras para tomarem um café juntos – e que vários CEOs de multinacionais costumeiramente aceitavam esse convite, por mais que não conhecessem quem estava chamando.

Pois bem, uma das minhas qualidades (ou defeitos, a depender do ponto de vista) é ter o que se convencionou a chamar de “cara de pau”, também conhecido como “a habilidade de ser capaz de perguntar diretamente e espontaneamente algo a alguém”. Apesar disso, para mim, atitudes desinibidas assim são bem difíceis de fazer acontecer pessoalmente, porém na proteção da Internet, isso se torna mais fácil: afinal, o máximo que pode acontecer é não te responderem.

Cansei de enviar e-mails, que jamais foram respondidos, para diversas pessoas, sejam brasileiras ou estrangeiras. Da mesma forma, tive algum sucesso com outros e-mails. Um deles foi quando troquei e-mails com a Funimation Entertainment e seu CEO, Gen Fukunaga.

Em 2015, a Crunchyroll já estava estabelecida aqui no Brasil e a maioria dos meus colegas de fansub estavam com alguma função lá. Gostando de tradução, e sem equipe, resolvi simplesmente tentar jogar um e-mail para a Funimation e usar meu pitch para trazê-los ao Brasil. Em algum website obscuro, encontrei o e-mail do CEO e enviei algo simplístico como: “Oi, sou o Daniel, legendei animes e gostaria de contribuir com a Funimation; quer me escutar?”. Quase quatro meses depois, quando simplesmente achei que nunca seria respondido e durante uma palestra da Campus Party, chega o retorno: “Deixe-me ouvir o que você tem a dizer” e tive uma conferência de quase 1 hora com o cara.

Eu não sei se o Fukunaga queria saber apenas o que eu sei do Crunchyroll por ter ocasionalmente informações privilegiadas de lá naquela época, ou por ter sido ex-fansubber. A história do café realmente me parecia real, e fiquei extremamente entusiasmado por ter tido uma chance de vender minha ideia, e dei o meu melhor (que, diga-se de passagem, provavelmente não serviu de nada). No fim, ele me apresentou à uma pessoa que supostamente trabalharia comigo, mas que nunca me deu retorno.

Pouco tempo depois, veio a joint-venture da Crunchyroll com a Funimation e eu deixei todas essas ideias de lado. Em uma reviravolta, esta parceria terminou, a Funimation foi comprada pela Sony e anunciou planos para se expandir pelo mundo. Automaticamente, pensei: esta é a hora.

Enviei outro e-mail, que foi respondido em alguns poucos dias e me apresentando à uma nova pessoa. Esta nova pessoa me respondeu, fiz uma conferência com ela – inclusive, estava nas altas montanhas do Peru no momento – e tentei, novamente, vender minha ideia.

Se deu certo? Não sei, alguns assuntos corporativos – principalmente se tratando de animes e afins – são bem lentos. Pode ser que eu tenha resposta em alguns meses, ou até anos. Ao menos sei que o besouro que plantei em 2015 vai funcionar e, uma hora ou outra, a Funimation vai chegar ao Brasil.

Mas meu ponto não é esse, e sim o quão fácil foi me comunicar com essas pessoas. Gen Fukunaga é o CEO de uma empresa avaliada em 100 milhões de dólares e que hoje faz parte de um dos maiores conglomerados empresariais do planeta, mas mesmo assim foi possível conseguir um pouco do tempo dele. Aqui no Brasil, com o estilo de gestão que nós temos, não me imagino sendo capaz de chamar CEOs para conversar – até o da própria empresa que sou funcionário já é difícil, e esse é um forte ponto a mudar.

Publicado por

Daniel Araújo

Redator-chefe do próprio blog. Escreve bem sobre absolutamente nada, tem opinião sobre absolutamente tudo. Ninguém se importa mesmo assim.

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