Afinal, por que o mercado de animanga não cresce?

Nota do Editor: Esse texto foi escrito originalmente para o blog Netoin, em dezembro de 2018, e reflete apenas minha opinião acerca do mercado de animes. 

Em 2008, em um finado blog meu, fiz algumas previsões. Naquele ano em especial, o grupo Dattebayo havia anunciado que iria parar de legendar Naruto em virtude de uma empresa estar trazendo o anime de forma oficial – legendado em inglês – poucas horas depois de ir ao ar no Japão. Boa parte da equipe do Crunchyroll, a empresa por trás disso, era feita por fansubbers e a matemática era simples: você lança antes, você ‘ganha’ (mais downloads).

A consequência mais óbvia disso tudo era o direcionamento da atenção dos fãs mais hardcores à um serviço oficial. Focar principalmente na transmissão simultânea de grandes sucessos como Naruto e Bleach se revelou uma estratégia extremamente acertada como porta de entrada a outros animes menos conhecidos, e que talvez não tivesse as mesmas consequências se o oposto houvesse ocorrido. O movimento que discuti no texto a época foi que, a medida que as legendas do Crunchyroll iriam melhorando em termos de qualidade (e parando de serem conhecidas como ‘HorribleSubs’) e saindo cada vez mais cedo em comparação ao Japão, haveria uma decadência enorme na quantidade de fansubs, e animes ficariam mais acessíveis ao público em geral. De fato, a maioria dos fansubs tradicionais norte-americanos (como o Shinsen-Subs, gg, UTW, Eclipse e Rumbel) encerraram suas atividades, e o Crunchyroll atingiu mais recentemente 2 milhões de assinantes pagos – o que é um feito impressionante para um mercado de nicho. Os fansubs que sobraram focam, hoje em dia, em legendar blurays (cito o grupo CoalGirls nesse aspecto), séries mais antigas não cobertas por nenhum serviço de streaming ou séries que, por algum motivo, não tiveram legenda simultânea (sendo a franquia Macross o maior símbolo disso).

Em 2014, quando originalmente escrevi a (minha) história do fansubbing brasileiro, essa mesma empresa estava se estruturando no Brasil. Não por acaso, a equipe inicial era composta por ex-fansubbers que já tinham um bom know-how no que faziam, o que não levou a cometerem os mesmos vícios que havia comprometido a matriz norte-americana. Escrevi que a mesmíssima coisa que aconteceu no exterior iria acontecer no Brasil, e que de fato aconteceu: hoje, temos pouquíssimos grupos na ativa – com o grupo Eternal Animes sendo o mais longínquo dentre eles -, e a atividade de fansubs brasileiros decresceu tanto que encontrar animes legendados em português, principalmente os mais antigos, é uma tarefa cada vez mais hercúlea. Essa dificuldade aumentou exponencialmente com o fim de agregadores como o Anime Blade ou de torrent trackers de grande escala, como o Seizu e o Haitou – o que não ocorreu no exterior, onde o AnimeSuki e o BakaBT existem até hoje e mantém sua relativa popularidade.

Apesar dessas dificuldades de encontrar animes fora do circuito mainstream, é quase uma crença comunitária que a expansão no catálogo de animes em serviços de streaming como Netflix (ou até a exibição em canais de TV) supostamente aumentaria o público que consome esse tipo de conteúdo e levaria o mesmo usuário a outros serviços, como o de mangá ou mesmo a serviços dedicados de anime (HiDive e Crunchyroll). Isso não acontece na prática porque os sistemas de recomendação utilizados nesses serviços são propensos a recomendar quem já tem gosto para isso: ou seja, você só recebe indicação de anime se já assistiu anime (no sentido stricto) ou animações (em lato) por iniciativa própria; ao público novo, que é focado em seriados ocidentais, tais recomendações são pouco eficazes. No fim, o mesmo público que assiste Naruto no Netflix é o mesmo público que compra o mangá da JBC, que vai ao Anime Friends e que tem uma conta no Crunchyroll. Como consequência da incapacidade de atrair novo público, ou mesmo de reter o interesse do já existente, temos que tal conteúdo continua a ser estigmatizado como infantil ou mesmo de forma individualmente pejorativa (na máxima de que, se você assiste anime e não seriados ocidentais, você está a margem da sociedade).

Adicionado a tais estigmas, existe um quê de nostalgia sempre atrelado à cultura brasileira, e que acaba por se tornar prejudicial. Cavaleiros do Zodíaco foi exibido em 1994 na Manchete, mas mesmo hoje – quase 25 anos depois – continua a ser visto como um grande hit inesquecível, assim como Digimon, Pokémon, Dragon Ball, Yu Yu Hakusho, dentre outros tantos que passaram na TV, e isso indiretamente faz com que as licenciadoras sempre tentem trazer mais e mais desse tipo de conteúdo na perspectiva de alavancar suas vendas e marcas. O problema dessa abordagem é que, em primeiro lugar, há um fenômeno exclusivo da internet onde muito se comenta e pouco se efetivamente faz: muitas pessoas que assistiram Cavaleiros do Zodíaco, apesar de acharem legal o novo remake, e até comentarem sobre ele, dificilmente veriam algo além do episódio 1; como prova disso, muitos mangás que são costumeiramente pedidos pelo público brasileiro e aclamados por serem algo diferente (principalmente de gêneros menos populares) tem vendas minguadas. O segundo ponto da abordagem de nostalgia é que ela não afeta o novo público, em especial o que nasceu nos anos 2000 em diante e não conviveu fortemente com animes nos canais de televisão ou com a popularidade das bancas de revistas, e também não afeta o público mais velho – que provavelmente nunca foi o público-alvo daquelas exibições.

Em especial, é possível atribuir parte da culpa dos fenômenos acima ao oligopólio de editoras de conteúdo japonês que temos aqui no país: JBC, Panini e a NewPop. Enquanto que, nos Estados Unidos, empresas como a Funimation, a Viz Media e a Yen Press se empenham a construir marcas e a divulgá-las para pessoas fora do meio tradicional (basta ver o balão gigante do Goku, da Funimation, na Macys Parade deste ano, ou o sucesso que My Hero Academia é lá), esse movimento é praticamente inexistente por aqui, limitando-se essencialmente a estandes de vendas em eventos de animes/cultura pop e algumas palestras, ao modelo do que ocorre no setor de tecnologia, nesses mesmos eventos. É verdade que a ausência da exibição de conteúdo em empresas como a Rede Globo ou a Band contribuíram para a situação atual desse mercado, mas ressalte-se que o objetivo destas era apenas atingir o público infantil, contribuindo ao mesmo estigma já citado (basta ver o nome dos programas aos quais eram veiculados: Band Kids e Bambuluá). Já em comparação ao oligopólio de editoras, o Crunchyroll é bem mais recente e tem visível pouca autonomia no mercado brasileiro, apesar de pouco ter feito para se popularizar.

No fim, tudo isso deságua no aspecto de gestão empresarial. Nenhuma das empresas brasileiras citadas – excluindo a Panini, que é multinacional, e mesmo assim há ressalvas – tem gestores realmente profissionais, que realmente dedicaram-se para estudar e criar um planejamento estratégico eficiente ou ações de marketing eficazes, sendo tudo feito majoritariamente na base do amadorismo. É sobre isso que este texto é: um breve manifesto de como atrair novo público para consumir conteúdo de animangá. Citarei vários pontos que devem ser levados em consideração.

1) Gestão e Compreensão de Mercado é primordial

Eu realmente duvido muito que quaisquer das empresas supracitadas realizem estudos de mercado com alguma frequência. Ao assistir aos anúncios de novo conteúdo, a impressão é sempre que “ah, os fãs pedem isso, então vamos lançar” ou “parece popular, vamos lançar”. Não há divulgação (tratarei disso depois) e, como consequência, há uma enxurrada de títulos no mercado em que as pessoas não compram porque não conhecem (afinal, julga-se o livro pela capa) e, depois, a culpa é do “brasileiro que não lê”.

Começarei a tratar pela situação específica da NewPop. Ela é aparentemente uma empresa de duas pessoas, sendo estas o dono e a tradutora (obviamente tem outros competentes profissionais envolvidos, mas que não devem estar no processo decisório). Por uma visível falta de ambição, a empresa não cresce: o sistema de assinaturas é simplesmente ineficiente e a empresa consegue perder vendas para outras lojas online (no sentido que o preço na Saraiva é mais barato que na própria NewPop). A relação com o público é bem deficitária, variando entre o abandono de redes sociais ou a falta de divulgação da periodicidade de algumas light novels (eu próprio senti isso com Log Horizon). O que se tem deles é apenas uma promessa de que ‘não cancelamos títulos’ – mesmo que você passe dois anos sem saber nada sobre ele.

Apesar disso, a NewPop pode ser considerada a melhor editora no sentido de inovação. Ao se arriscar com conteúdo diferente e, além disso, novo, é possível reter e atrair público. Em especial, as Light Novels abrem uma enorme porta para um mercado, já que constituem o conteúdo japonês que mais se aproximam de livros tradicionais – e, se bem trabalhados, poderiam vender muito mais do que já vendem hoje. Eu compro da NewPop mais por ‘pena’ (para ajudar) do que pelo conteúdo em si, pois tenho sempre a esperança de que tragam conteúdo cada vez melhor – audiobooks e Visual Novels podem ser futuros passos, imagino.

A JBC é bem mais complexa de se entender. O caso mais emblemático, para mim, foi quando eles resolveram trabalhar com streaming de animes no Brasil: a desorganização para manter sigilo foi tão grande que eu próprio descobri sobre isso por acaso e, junto a um colega (PaninoManino), divulguei tal informação. Não só isso, eles anunciaram que iram legendar UNGO em simulcast e, no final das contas, largaram esse plano sem mais nem menos. Sendo uma empresa bem maior que a NewPop, principalmente no aspecto de faturamento, espera-se que tenham ações de mercado bem maiores. Falso, e eu explico porquê.

Vamos fazer uma matemática básica: a Saraiva, em recuperação judicial, divulgou que deve à JBC cerca de 1 milhão de reais. Como o sistema é em consignação – ou seja, só paga quando vende -, podemos dizer que a JBC deve vender em torno de 400 a 500 mil reais por mês pela Saraiva. Assumindo que a Saraiva corresponde a 1/3 do faturamento da JBC, e que o ticket médio de compra é R$ 17,90, temos aproximadamente 82 mil mangás vendidos por mês. O problema? Normalmente, quem compra mangá, compra mais de um: tenho amigos que costumam comprar de 2 a 7 mangás por mês – se considerarmos o ticket médio de 2 mangás por pessoa (o que é bem conservador), teremos um público-alvo de 41 mil leitores ao mês. Isso é pouquíssimo, principalmente quando você tem uma enxurrada de títulos no mercado e o público tem que se dividir entre eles (por exemplo, é mais provável que Fullmetal Alchemist concentre muito mais vendas do que BTOOM, e deixe este último em déficit de vendas). Ter esse tipo de informação exata, com atualizações periódicas, ajuda, e muito, no processo decisório da companhia.

A falta de sensibilidade para com o mercado fica escrachada quando se analisa o serviço ‘self-service’ deles (apelido dado pelo editor do Mais de Oito Mil), onde se lançam vários mangás de uma só vez em um mês. A lógica do ‘não funcionar’ é mais simples que a do ‘funcionar’: se os leitores estão propensos a gastar apenas 40 reais por mês, lançar 8 potenciais volumes de séries diferentes não vai fazer com que eles comprem tudo de uma vez, principalmente quando parte potencial do público é composto por crianças e jovens, cujo poder de compras é demasiado pequeno – além de, obviamente, dificultar bastante o planejamento financeiro futuro da empresa. No fim, suspeito que isso seja apenas o desespero de tentar se livrar de estoque e gerar receita urgente em virtude do prejuízo colossal que a Saraiva e a Cultura recentemente deram na empresa.

A Panini é a maior das editoras listadas em aspectos de faturamento, mas que também advém das vendas de comics estadunidenses e álbuns de figurinhas da copa do mundo. Vou relegar o comentário ao fato de que a maioria esmagadora das séries já são sucessos (ou de autores consagrados) ou já tiveram alguma repercussão em anime, de forma que não há nada muito ‘novo’ ou ‘diferente’ que contribua para a atração de público novo, ou que necessite de divulgação massiva por aqui. Entretanto, ressalta-se o posicionamento de preço: a light novel de Sword Art Online, lançada esse mês, custa R$ 39,90. Até aí tudo bem, já que está alinhado com o preço do padrão internacional de US$ 10,00; o problema reside no fato que o livro em inglês, em sua versão digital, custa R$ 29,90 e a própria Panini não lançou a versão digital do conteúdo. Quando o título em português é anunciado, é normal que se tenha uma maior atenção para ele e é justamente essa falta de cuidado com preço que pode canibalizar as próprias vendas da editora com o público de certa classe econômica (que sabe inglês fluentemente e que tem acesso a tecnologias de e-reader). Não só isso, insumos de papel no Brasil são bem mais baratos que no exterior (TEMOS A AMAZÔNIA INTEIRA), de forma que boa parte desse preço de capa é mero lucro. O resultado? Enquanto alguns fãs podem comprar sem hesitar, o público comum certamente, sem conhecer o título, dificilmente entraria nessa jogada.

Finalmente, temos o Crunchyroll Brasil que, com quase cinco anos de atuação aqui, ainda luta para ser conhecido. Eu meço isso quando converso com pessoas que sei que gostam de anime, mas estão fora daquela comunidade que considero ser mais ‘intensa’ (leia-se: até dois ou três graus de separação do meu twitter). Semana passada, fui ao McDonalds e, por acaso, estava com uma camisa do Midoriya (My Hero Academia). A caixa que me atendeu literalmente começou a dar um escândalo sobre o quanto My Hero Academia era bom, que era difícil de encontrar os episódios e que ela tinha um aplicativo ‘GigAnime’ (ou qualquer coisa do tipo) no celular para ver tudo. Da mesma forma, colegas de trabalho chegam para mim recentemente falando do quanto Code Geass (agora no Netflix) é incrível, e que encontraram a série por acaso, mas desconhecem totalmente o Crunchyroll, apesar de terem também um PlayStation 4 e Xbox One (para consumir mídias digitais). O público em potencial é imenso.

Nos primórdios da operação, em 2012, o Crunchyroll Brasil era originalmente administrado por um português e, naturalmente, adotou a alcunha “Crunchyroll PT” em homenagem a Portugal – apesar de jurarem que é em relação ao idioma português, e que permanece até hoje. Falta de planejamento é isso: apesar da reforma ortográfica, legendas e dublagens em português do Brasil nunca terão a mesma fluidez para fãs de Portugal e idem vice-versa. Isso levava a uma inconsistência de qualidade quando fluentes em um português ou outro queriam trabalhar em legendas, e consequentemente à uma divisão do público-alvo no mercado.

Com a mudança de gerente editorial para um brasileiro nativo, algumas ações urgentes de melhoria puderam ser finalmente tomadas. Participação em eventos de anime, adição de dublagens e facilitação no pagamento – como débito recorrente – auxiliaram muito a chamar aquele público que já deveria ter sido atraído há tempos. Estimaria que o serviço deve ter entre 100 a 200 mil pagantes, o que é bom para sustentar as operações no país, porém muito pouco quando comparado aos 2 milhões que a empresa possui globalmente.

Por uma reviravolta da vida, o calo no Crunchyroll aqui no país tem sido justamente o que o fez se dar bem no passado, que foi o uso do modelo de fansubs. Inicialmente, pela maioria esmagadora da equipe estar contratada em modelo de freelancer, tem-se que uma série é legendada por X membros e, outra, por um grupo Y de membros completamente diferentes. Some a isso o fato de que a maioria dos tradutores também são oriundos de fansubs e tem a mentalidade previamente viciada – alguns, adoram honoríficos; outros, não. Isso leva a uma inconsistência, não solucionada pela gestão, de tal forma que assusta usuários que não são familiarizados com o culto da língua japonesa que usualmente ocorre nesses meios. Não só isso, ocasionalmente encontra-se relatos em imageboards/Reddit sobre aspectos de gerenciamento de RH, que vão desde a demissão de um funcionário por intermédio de outro até a contratação pelo que se convencionou chamar de ‘amiguismo’.

Finalmente, em uma vaga de Analista de Marketing, o Crunchyroll coloca requisitos como ‘Preferir a Rem à Emília” (Re:Zero). É algo bem bobo, mas esse exemplo é icônico do quanto o nosso mercado de animangá está viciado: só chamamos pessoas que estão já neste meio, evitando se abrir para ideias que possam atingir a quem está de fora deste meio, e consequentemente fazendo mais publicidade apenas para o público que já é atingido atualmente, em um ciclo de atraso. E essa atitude pode levar tudo por água abaixo.

Estou longe de advogar por um modelo exatamente igual ao da Funimation, que é bastante corporativo e hierárquico (até porque empregam mais de 200 pessoas em um escritório centralizado), porém um modelo misto pode ser interessante tanto para o cenário de animes quanto para o de mangá. Apesar de um pouco exagerada, a recente declaração de Gen Fukunaga acerca da presença de Neon Genesis Evangelion no Netflix tem um fundo de verdade: o objetivo do Netflix é apenas ter séries/filmes que se considera já popular para atrair e reter público, pagando muitas vezes uma soma inquantificável de dinheiro por elas – e que o Crunchyroll ou a Funimation não seriam capazes de cobrir a oferta -, mas o trabalho de base com a maioria das séries não é efetivamente feito.

Ao invés de tentar reinventar a roda, analisar cases de sucesso no exterior poderia ajudar, e muito, a atrair um novo público. Uma gestão mais profissional e com visão mais ambiciosa em todas essas empresas poderia, e muito, beneficiar o mercado de animanga.

2) Modernização do Conteúdo

Há alguns dias, a Viz Media anunciou que iria disponibilizar a Shonen Jump e os novos capítulos gratuitamente em inglês de mangás em uma espécie de “simulscanlating”. Quem quiser ler mangás ou capítulos antigos, pagaria apenas 2 dólares por mês. Isso é um baque tão forte aos grupos de scanlators quanto foi aos fansubs com o Crunchyroll.

Nesses mesmos ‘alguns dias atrás’, nossas editoras tupiniquins anunciaram um monte de conteúdo – apenas em formato físico – que tiveram uma escalada enorme de preços. A maioria destas editoras sequer possui conteúdo em formato digital e, quando tem, normalmente é para plataformas como Kindle, Kobo, etc, e o preço não é atraente em relação a outra versão. Conseguem perceber a diferença de atitudes de mercado?

Disponibilizar em formato digital não é apenas ter o mangá para ler no kindle ou e-reader similar. É simplesmente poder abrir o celular – dispositivo onipresente em nossa sociedade – e, através de um navegador web, ler o que você bem entender. O modelo de ter uma plataforma digital na web que unifique todas as leituras funciona incrivelmente bem com os fãs – basta ver que algumas plataformas, como o falecido OneManga, fizeram tanto sucesso com este modelo que acabaram sendo extrajudicialmente forçados a fechar as portas. Enquanto que esse tema entrou recentemente em voga com o anúncio da Viz, isso nunca sequer foi cogitado por nossas editores.

Apesar de provavelmente ser necessário renegociar as licenças de distribuição dos mangás, este modelo é muito mais aberto à nova geração que está por vir. No Brasil, em especial, acredita-se que mangá físico ou “é item de colecionador” ou “que nada substitui o cheiro do papel”, o que limita muito a definição do escopo do público-alvo. Entretanto, migrar para o mundo digital, com o modelo de assinaturas, tem-se apenas o custo inicial alto – para desenvolver a plataforma em si e adicionar o conteúdo inicial -, porém o fluxo de caixa mensal fica muito mais previsível, muito menos sazonal e as margens de lucro bem maiores (afinal, o fluxo de produção diminui consideravelmente, já que não se gasta com impressão e distribuição).

O grande ponto com esse tipo de plataforma é diminuir a distância entre o lançamento em japonês e em português: é devido a isso que os scanlators sobrevivem até hoje. Quem realmente acompanha um mangá dificilmente espera um volume inteiro para comprar físico, e vai lendo capítulo a capítulo por meios não-oficiais. Imagina esperar um volume de Hiato x Hiato ser lançado fisicamente em português! Dessa forma, quando o mangá ‘oficial’ chega às bancas, o conteúdo que ele possui já deixou de ser inédito e, além disso, boa parte dos leitores que o adquirem já consumiram o conteúdo previamente. Oras, se não há ineditismo, também não há vontade de adquiri-lo: a própria demora de lançamento canibaliza o lançamento, e essa é a vantagem da plataforma de lançamento simultâneo. O modelo digital e físico não são excludentes, mas complementares – e um ainda pode divulgar explicitamente o outro.

A lição desse ponto é a mesma do primeiro parágrafo deste texto: é incabível, em pleno 2018 (quase 2019), termos um atraso gigantesco entre a publicação do conteúdo original e a tradução deste. Pior ainda, priorizar apenas o conteúdo físico em detrimento ao digital. Se um dia a Viz Media chegasse aqui no Brasil, nossas editoras simplesmente iriam falir por ter um modelo de negócios totalmente ultrapassado.

3) Tratar animes de forma ‘normal’

Conheço pessoas que aceitam chamar ‘La Casa de Papel’ como ‘A Casa do Papel’, mas não aceitariam chamar ‘Kimi no na wa.’ de ‘Seu nome.’ ou ‘Mirai Nikki’ de ‘O Diário do Futuro’. Conseguem perceber a incoerência? É incrível como as pessoas aceitam todo tipo de tradução e adaptação de termos e nomes em Harry Potter ou em filmes da Disney, então qual o problema em fazer o mesmo com animes?

A máxima da tradução é dar ao público que consome a tradução a mesma experiência que a pessoa nativa está tendo. Em tese, se o material original é direcionado ao público japonês, então traduz-se tudo que está em japonês; se estiver em francês, não se traduz porque a intenção do autor do conteúdo era que aquele público japonês não entendesse o que está sendo dito de cara (afinal, nem todo japonês sabe francês).

Acontece que, nos dias de hoje, o público que consome anime tem uma certa ‘tara’ por traduções literais. Na maioria dos casos, isso não é tão problemático, mas, em outros, sim. Cito o exemplo de Seitokai Yakuindomo: o anime é recheado de piadas de duplo sentido que podem fazer sentido para o japonês médio, mas nem de longe fariam para o brasileiro se fosse traduzidas de forma literal. Adaptar a tradução seria duramente criticado pelos fãs mais hardcores, porém teria potencial de atrair pessoas fora desse meio – afinal, poderiam dar risadas com as piadas sendo contadas. Da mesma forma, haveria um rebuliço enorme se traduzissem o termo ‘Onii-chan’ (falado pela Miyuki) nas Light Novels de Mahouka; porém, imagine-se na posição de um leitor que abre para folhear uma light novel em uma livraria, bem por acaso, e vê um monte de termos em japonês: intimida-se e vai embora.

Eu próprio sofri com esse tipo de repercussão negativa quando fazia fansubs. Não importava se a legenda era traduzida diretamente do japonês pelos melhores tradutores que conheço (onde alguns, inclusive, tornaram-se profissionais), se meu grupo fazia legendas em incrível tempo recorde ou se as legendas fizessem todo o sentido do mundo: toda semana eu iria ver algum comentário extremamente ácido em imageboards porque ‘japoneses não falam naquele linguajar’. Em contrapartida, sentia-me livre para assistir minhas legendas com qualquer outra pessoa sem ter que me preocupar se ela ia entender todo o contexto ou não.

Um exemplo que me vem a cabeça é, em Fullmetal Alchemist, a diferença das palavras ‘Renkinjutsu’ e ‘Rentanjutsu’. A primeira é interpretada como sendo a alquimia tradicional, utilizada pelos personagens, enquanto a segunda é uma técnica usada em uma nação inspirada na China. Apesar de não ser um elemento crucial para a história, essa diferenciação faz sentido para o entendimento das diferenças entre alguns personagens. Se o tradutor traduziu o primeiro termo para “Alquimia”, por coerência, deveria achar um termo para o segundo – em alguns grupos, deixaram “Rentanjutsu” ou “Alquimia do Leste”. Após uma conversa com grupos estrangeiros, todo mundo optou pelo uso do termo “Alkahest” – ou Alkahestria (apesar que acho que Alcaestria ficaria melhor hoje em dia), e assim surgiu minha primeira página da Wikipedia; tenho em mente que, após assistir um episódio, é muito mais fácil pesquisar na internet por “Alkahestria”, e ter resultados palpáveis, do que por “Rentanjutsu” (senti muito orgulho de mim mesmo quando vi esse amálgama, criado por mim, em uma revista da Editora Abril, mas isso é história para depois).

Fato é que, para atrair novo público, as editoras deveriam bancar a mudança de mentalidade neste aspecto de tradução, sendo esta uma meta de longo prazo. É parar de chamar “Kuroshitsuji” de “Black Butler”, e sim de “Mordomo Trevoso” (tá, foi proposital); ou “Shigatsu wa Kimi no Uso” de “Your Lie in April”, e sim “A Sua Mentira em Abril”. É parar de pensar que honoríficos são algo especial. É parar de pensar “ah, não dá pra traduzir literalmente, então vou deixar o termo em japonês”. É parar de sucumbir à mentalidade de uma pequena parcela da população que consome esse conteúdo e visar a popularização do mesmo.

Falei até agora de mangás, mas a mesma coisa se aplica para dublagens. Chega a ser vergonhoso ver dublagens com honoríficos. Mesmo boa parte das pessoas que fazem questão de honoríficos não sabem exatamente a diferença precisa entre -kun, -san, -sama, -dono, -sensei, -chan, -hakase, então como esperar que pessoas que não se importam com essa diferença queiram ver algo que contém isso?

Some a isso como o fato da maioria das dublagens aqui no Brasil simplesmente não serem boas.

Um dos maiores motivos que se alega para se ver conteúdos legendados ao invés de dublado é para poder acompanhar a atuação dos atores de forma mais eficaz. No caso dos animes, em especial, como a mídia visual não envolve propriamente atuação física, isso fica relegado às vozes dos dubladores. Acontece que, comparando o material em japonês com o brasileiro, há uma discrepância de qualidade muito grande – não falo uma palavra de japonês, mas já me peguei lacrimejando com diversos episódios de Gintama e de My Hero Academia porque, por mais melancólico que pareça, a mera entonação de voz transmite certas informações de forma universal. Nos Estados Unidos (bem, é o único exemplo forte que tenho), as dublagens de My Hero Academia são fortemente elogiadas pelos fãs, enquanto que, no Brasil, não temos essa mesma repercussão. Com a exceção de alguns dubladores mais famosos, não há uma real preocupação em se fazer uma ‘boa atuação’ de voz para esse material, de forma que o processo de dublagem acaba se tornando inútil para a comunidade em geral e tem-se, mais uma vez, reafirmada a crença que dublagens de animes nunca serão boas (principalmente porque o grosso de fãs que devem assinar Crunchyroll e afins não tem interesse em dublagens).

Foi assistindo Dragon Ball Super e Pokemon B&W em japonês que percebi o quanto nossa dublagem é tosca, e que vive essencialmente de nostalgia. Como melhorar? Ter um controle de qualidade mais próximo, ao invés de simplesmente encomendar e deixar o estúdio terceiro por conta própria. Ou simplesmente ter critérios melhores na hora de traduzir o script, escolher dubladores e os engenheiros de sons envolvidos.

Fato é que enquanto que os fansubs foram responsáveis pela maior parte da divulgação de animes no Brasil, eles também são culpados por essa mentalidade viciada que se discute acima. Um documentário do OtaKing (em inglês, em cinco partes) discute bem esse vício, que acabou se estendendo para todo tipo de mídia relacionado a anime. Perdê-lo é o primeiro passo para o trabalho de ser de “fãs”.

4) Divulgação

Sempre quando falo de divulgação, tenho que citar o exemplo dos óculos. Algumas décadas atrás, óculos eram artigos de vestuário ‘feios’: os modelos eram de fundo de garrafa, as pessoas que os usavam eram ‘nerds’ (no sentido ruim) e ‘esquisitòes’, dentre outras coisas. Após anos de investimentos da Luxottica (quase um monopólio na fabricaçào de óculos), a situação se inverteu e, hoje, se tem diversos modelos, e até pessoas que gostariam de usar óculos sem precisar.

Da mesma forma, o Uber. A primeira vez que minha mãe ligou um computador foi em 2014, quando necessitei mudar de cidade, e ela está longe de ser ‘proficiente’ com smartphone. Porém, ela sabe o que é Uber. Sabe que é mais barato que táxi e usualmente tem o serviço melhor, e não tem medo de andar com eles. Aquela propaganda onipresente do Uber em aeroportos, outdoors e até em ônibus deu um bom resultado.

É somente com o marketing inteligente que um mercado cresce: as pessoas não precisam do seu produto até que você as mostre a necessidade – e vez por outra, apenas mídia digital não basta. Estou longe de falar para as empresas baterem com gigantes como o Netflix, mas se precisa investir mais em ações fora da caixa. Cadê as ações em filmes de cultura pop, como os da Marvel ou mesmo nos filmes de Dragon Ball? Boa parte dos gamers tem potencial para consumir conteúdo oriental, então cadê as parcerias com os youtubers também?

Estandes na CCXP/AnimeFriends podem ajudar de certa forma a capturar um público já latente, mas também  chega uma hora que é necessário atingir novas pessoas. Meu pai, de quase 60 anos, assiste animações da Disney quase que diariamente, então por que ele não está sendo atingido por animes, que tem histórias muito mais maduras e inteligentes? Meu professor de pós-graduação adora Dragon Ball Super, então por que ele também não está sendo atingido pelas criadoras de conteúdo? Esse público mais velho em geral é avesso a redes sociais, mas tende a ser economicamente mais ativo e propensos a gastar, então outras estratégias devem ser pensadas para essa faixa. Enquanto é possível entender que existem limitações orçamentárias em editoras menores como a NewPop, o mesmo problema não acontece com a Crunchyroll, a Panini e a JBC. E aí desaguámos no velho problema de gestão e visão de longo prazo.

É importante bater na tecla de um novo público porque a base da pirâmide etária do Brasil está se invertendo. Apesar de focarmos muito no ambiente digital, a população que nasce está cada vez menor, enquanto que a que envelhece está maior e é necessário alternativas não só para atrair a população mais jovem e a mais velha, como também reter o público que já existe – eu próprio já cheguei a assistir 12 animes em uma temporada, hoje assisto 4, e percebo que existe uma tendência de parar a medida que fico mais velho, se nada for feito. E acompanhando tudo isso desde 2004, percebo que não sou o único a me sentir assim – basta ver os índices de downloads caindo em locais que sempre foram populares.

Quando o grupo Dattebayo encerrou suas atividades, lembro que, no texto de despedida, um indivíduo de alcunha ‘insanii’ comentou que um episódio qualquer de Naruto bateu 1 milhão de downloads. Isso era interessante porque significava que 1 a cada 6000 pessoas provavelmente teria visto aquele episódio – e, mesmo em uma pequena cidade de 20.000 habitantes, haveria chances significativas de ele encontrar alguém que houvesse assistido aquele episódio. Hoje, o anime mais baixado no NyaaTorrents é um episódio de Shingeki no Kyojin com 50 mil downloads; mesmo descontado os efeitos do streaming na quantidade de downloads no torrent, trata-se de uma queda vertiginosa.

Em um mercado de entretenimento onde movimentamos US$ 1.3 bilhões de dólares, temos 66 milhões de jogadores digitais, onde 41% são mulheres, e onde eventos como Anime Friends recebem 100 mil visitas anuais e a CCXP, o dobro disso, os potenciais de atração de novos públicos são imensos. Não sei vocês, mas eu gostaria de mais pessoas para discutir sobre a próxima temporada de Gintama.

– rjk

Publicado por

Daniel Araújo

Redator-chefe do próprio blog. Escreve bem sobre absolutamente nada, tem opinião sobre absolutamente tudo. Ninguém se importa mesmo assim.

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