#Ragnarok: Uma breve história na BRASnet

Recentemente, vi uma vaga que me chamou atenção e resolvi aplicar – sempre faço isso, apesar da maioria dos casos nunca dar retorno. Um dos formulários solicitava que se contasse histórias de empreendedorismo, liderança e afins: óbvio que citei a história da Elysium e dos fansubs, que já estão recordadas aqui no blog, mas acabei escrevendo uma em particular que me deixou um pouco saudosista.

Era do tempo do IRC.

Meus primeiros usos de internet foram essencialmente para conversar. Como todos, naquela época, eu tinha o MSN para me comunicar com meus amigos de escola e pessoas da família, além de usar frequentemente o bate-papo da UOL nas salas de Digimon e de Informática. Lembro que houve uma época a qual uma tia que cuidava de mim aprendeu a usar esse mesmo bate-papo para fazer amizades em Natal e ia se encontrar pessoalmente com as pessoas que conhecia: o problema era que ela me levava e se encontrava com diversos indivíduos inusitados. Àquela época, já utilizava esse nick que todos conhecem, e também um que se referenciava ao Elc, do jogo Arc The Lad, ao qual eu gostava bastante.

Durante o intervalo do meu curso de inglês, provavelmente em 2003, um colega meu me apresentou a um novo “bate-papo” para conversar com pessoas que jogavam Counter-Strike. Eu nem jogava isso, sempre fui muito ruim, mas o programa me parecia ser intrigante, com todas aquelas letras e frases subindo ao se conectar e uma quantidade infinitamente maior de pessoas que no UOL. Depois de um tempo, notei que um website que eu costumava visitar tinha um chat que acontecia através daquele mesmo programa. Baixei o Scoop Script e, depois de um esforço, consegui me conectar àquela que era a maior rede de IRC do país: a BRASnet.

Naquele tempo, eu provavelmente era muito jovem para saber o que era o mIRC (o programa) ou o IRC (a rede) enquanto conceitos. O Scoop Script era uma customização do mIRC (que é pago, mas que na prática todo mundo pirateava o serial), e tinha uma janelinha de doação sempre que se iniciava: isso me fez crer inicialmente que o software era pago, e por muito pouco cheguei a considerar a fazer o pagamento. Eventualmente, conheci outras customizações bem legais e que não tinha esse incômodo de doação: tinha o Cebolinha Script, o Cyber Script, o The Seven Deadly Sins (muito antes do anime!) e o Invision, ao qual adotei por bastante tempo. Mas esses detalhes são cosméticos e não-relevantes.

De toda forma, é indescritível o impacto que esse dia teve para mim e do quanto ele mudou minha vida. Posso falar que o circulo social que desenvolvi pelo IRC foi muito maior do que em qualquer outra comunidade que já participei ou até mesmo na vida real. Quando comecei a acessar, a BRASNet já havia saído de sua ‘época de ouro’, porém ainda haviam muitos usuários remanescentes que a acessavam. O primeiro canal (sala) que acessei foi o #DetonaPoint, em homenagem ao website homônimo em que eu consultava detonados como o de Xenogears. Eu realmente queria muito lembrar o nick de algumas pessoas (excetuando o Dark_Goku e o VegetaSSJ8, que eram os donos), mas não chegam a cabeça. Só sei que eu tinha um enorme prazer em passar horas conversando com aquelas pessoas que estavam em outro local do Brasil. O poder da internet era simplesmente mágico.

Um canal mais famoso era o #RPG: nunca havia jogado uma partida de RPG, mas achei que seria um bom começo: e foi, descobri que existiam programas para isso, participei de várias rodadas (sem nunca ter lido um livro de Dungeons & Dragons) e acabei tendo contato com muitas pessoas que me influenciaram, seja para o fansubbing (na realidade, antes de participar do ShaKaw, um guri de nickname Venom_Sk8borders havia me chamado para participar de um grupo chamado Raitei) ou para a programação (o programa de RPG, chamado RRPG, era escrito em Delphi, e isso me fez ter curiosidade para estudar programação desde então).

Para um adolescente (de 13 anos) que nunca teve contato com isso, a estrutura de um canal ser formada hierarquicamente por operadores, voicers (um tipo de usuário “vip”) e usuários comuns era bem interessante. O sonho de todos era ser um “OP” em um canal cheio, simplesmente pelo fato de poder mandar. Como eu também ambicionava isso, montei o meu próprio; porém, para que ele pudesse encher, desenvolvi um atrativo: os bots de RPGs. Eles foram decididamente meus primeiros passos na programação, apesar de serem triviais: falava-se com o bot através de chat privativo com base em comandos, e era possível criar um cadastro (em arquivos .INI!), lutar contra monstros fictícios (como um MUD) e outros jogadores; cada um tinha seus equipamentos, status de poder, etc. Nunca fui muito proficiente em fazer esses bots, mas imagino que algumas pessoas foram capazes de se divertir um pouco neles.

Em meio a tudo isso, resolvi explorar outros canais. Um dos MMORPGs do momento era o #PristonTale, o qual eu havia jogado com alguns amigos (e ficado para trás devido a minha falta de tempo pela conexão discada), e comecei a frequentá-lo. Alguns nicknames famosos eram o RubyWeapon, o Boogiepop (cujo antigo era Eric_Cartman, e que já falei dele em outro post), Will_Simmons e o firelock, que era o dono do canal. Para os dois primeiros, até hoje mantenho contato via facebook. O outro canal era o #Ragnarok, baseado no jogo de mesmo nome.

Veja bem, o jogo estava em sua época de ouro. Minha experiência até então havia sido com a versão brasileira com o CD que a Level Up! distribuia gratuitamente pelos correios, já que eu levaria eras para baixar com minha conexão discada a época. Não tinha nenhuma chance de baixar a versão coreana para jogar em servidores piratas. Mas gostei do clima do canal e das pessoas, então resolvi participar mais dele.

Acontece que o dono do canal (chamado Cronnos) queria um website. Como eu já tinha toda uma expertise fazendo sites na vilabol com minha foto, fundo azul, hino do flamengo e os dizeres “Meu nome é Daniel”, resolvi fazer. Pesquisando, achei um webhost gratuito, chamado Deluxe Host, um redirecionador de domínios com o final .co.nr e instalei o sistema Xoops com um tema bem legal. Havia surgido o website do canal e ganhei o status de OP. Isso me fez viver muitas histórias inusitadas. Depois volto para falar do website.

A primeira delas foi quando algumas pessoas achavam que ter status de OP no #Ragnarok equalizava a ser um Game Master da versão oficial do Ragnarok. Recebi inúmeros relatórios de cheating de usuários. Outras pessoas achavam que isso atestava minha capacidade de ser gestor: em um determinado momento, fui chamado para ser administrador de um servidor privado. O nome do servidor era Nezumi, e haviam dois donos; lembro que um era mais legal e o outro, nem tanto. De toda forma, o ‘cara legal’ me enviou um CD com a versão coreana do Ragnarok e o Sakray, que é o servidor de testes com as atualizações mais recentes. Desnecessário contar como foi o escândalo que esse episódio gerou em minha casa, já que recebi coisas de estranhos e minha mãe era desconfiada com tudo. De toda forma, realmente virei administrador desse servidor porque sabia o mínimo acerca de emulação de jogos. Foi graças a ele que conheci algumas pessoas, em especial uma menina que ficou muito minha amiga. Acho que foi com ela a primeira vez que usei webcam para ver outra pessoa no MSN – ela era alguns anos mais velha e morava em Londres.

Também teve a primeira vez que encontrei uma pessoa da internet em Natal. Era o TaiShan, que hoje é um respeitável Veterinário e é mais um que até hoje tenho contato (leia-se: amizade no FB), e foi por causa dessa mesmo canal. Recordo-me que fomos nos encontrar em um shopping daqui de Natal e que meu pai não quis me dar um centavo sequer para jantar. O Arthur foi tão legal que dividiu a pizza de calabresa dele comigo, mas nunca mais nos encontramos de novo depois desse dia. Acho que a superprotetividade dos meus pais não é uma coisa muito boa.

Não vou lembrar de todas as histórias impactantes, mas lembro de alguns nomes da equipe do #Ragnarok. Tive muitos fins de semana de risadas com o arbweb e outro rapaz chamado Bkxwy, em que nunca esqueci uma foto hilária de cosplay de Goku que ele fez. Um outro rapaz chamado Saitou não gostava de ninguém e era sempre o mal humorado. Havia o Timexy, que me parecia ser o mais sensato e inteligente. O Cronnos foi quem me convenceu a ter o hábito de evitar o internetês mesmo quando eu ainda era muito jovem, e reconheço o quanto essa atitude foi boa para mim (tudo isso ocorreu há pelo menos 15 anos, e estou surpreso de ter uma memória tão boa em lembrar esses nomes). Em algum momento, criei um ‘flog’ (leia-se: uma página html de fundo branco com o código de imagem e uns comentários toscos) do canal e sempre me divertia com as fotos que chegavam. Não se havia muita preocupação com belos ângulos fotográficos, o importante era simplesmente se mostrar e rir – algo totalmente diferente do que temos hoje no Instagram e Facebook.

De volta para o site, queria transformá-lo em um website de referência, mas não tinha conhecimento o suficiente para fazer um banco de dados como o do Prontera.com.br, que era a referência de fansite da época. Então fiz o que tinha que fazer: coloquei conteúdos que não se achava em qualquer lugar, e desde então comecei a ter a noção do quanto o fato de ter conteúdo em português impacta a vida de muitas pessoas. Eram tutoriais sobre servidores, sobre quests no Ragnarok ou até informações básicas do jogo. Coloquei muitos, muitos downloads e notícias. Nesse último aspecto, imagino que poucos sites se importavam em listar novidades dos servidores coreanos ou sobre o Ragnarok 2, que na época estava para ser lançado e foi um fracasso.

Uma das partes mais legais foi ir atrás de websites para fazer parcerias. A maioria delas eram através de contatos meus no estilo mais “cold call” possível, porém fiz uma parceria épica com a Rádio Animix em que até fizeram uma vinheta legal em troca de um webplayer no nosso website. Esse tipo de abordagem rendeu uma troca de botões entre websites com vários outros parceiros também. Finalmente, fiz uma parceria com a “Liga Experiment” e o website “Canal Ragnarok” passou a se chamar “Ragnarok Experiment”. Essa coisa de ‘fazer ligas’ estava virando moda na época, e muitas pessoas se aliavam para fazer divulgação mútua e crescer juntos. Nunca ganhei um centavo sequer, mas a divulgação melhorou o fluxo de visitas no website e a equipe foi crescendo aos poucos.

Finalmente, devido a alguns conflitos que não me vem a cabeça, saí da equipe do #Ragnarok e deixei o website com outras pessoas para que ele não morresse. O rapaz da Liga Experiment tinha me chamado para participar de um grupo de legendagem One Piece e, desde então, havia me envolvido com os fansubs e comecei a frequentar outra rede de IRC: a Rizon. Já era um caminho sem volta. Entretanto, o que sempre me surpreendeu era a quantidade de visitas constantes que o website sempre recebia mesmo depois de ter parado de ser desatualizado – sinal que o conteúdo que lá estava era relevante (ou o contador havia quebrado), e de vez em quando acessava-o para conferir se havia alguma coisa nova.

Apesar de ter ficado mais ativo na Rizon, que era a rede associada aos fansubs, e ter vivido outros tipos de aventuras digitais mais intensas e até mais perigosas (principalmente porque começaram a envolver o mundo real), isso não me impediu de viver ainda mais coisas na BRASnet. Já tive meu nickname banido por 1 ano (não desejo q-line a ninguém) simplesmente por estar no canal errado, no dia errado e na hora errada: uns hackers que por acaso conheci um dia antes (lembro de um nick chamado Idec_Revoltution) resolveram fazer um ataque de negação de serviço na rede, e o dono da rede (o mauritz) simplesmente chegou lá e baniu todo mundo. Era madrugada, eu estava dormindo e havia deixado o computador ligado – sobrou para mim também; graças a isso, passei um ano tendo que usar um outro nick: Ritsu (não me perguntem porque tenho essa fixação com nicks japoneses com R).

De toda forma, o problema que atitudes de ataque à rede como essas se tornaram cada vez corriqueiras, e a instabilidade afetava todo mundo severamente. Em um momento de decadência da rede, em que ela estava aceitando parcerias de rede, conheci outro rapaz de nome unl0ad no #PristonTale e virei Administrador da Rede Local (IRC Op) dele por um tempo. Até que a Brasnet acabou, o que já era previsto.

Comecei a escrever esse post por puro saudosismo e o fiz “de uma só vez”; esse texto nunca vai refletir tudo que vivi ou o quão incrível são as lembranças que tenho, principalmente porque estou omitindo inúmeros fatos (principalmente no #Ragnarok) que não tenho totalmente à cabeça agora, mas também não quero esquecer o que ainda consigo me lembrar. O título desse post é mais relacionado com o meu website, mas trata principalmente sobre as corriqueiras aventuras digitais que tive nessa Brasnet. O texto de despedida feito pelo mauritz, o ‘dono’ da rede, é algo que todos deveriam ler, e em especial, quando o vi pela primeira vez, doeu tanto quanto ter um amigo tirado de mim: só ficaram boas e velhas lembranças.

– rjk

P.S..: O website do Ragnarok Experiment pode ser encontrado aqui. O DetonaPoint, que é um dos websites mais incríveis que já visitei, é esse. Isso não merece entrar no limbo da internet, e é meu tributo a eles.

P.S.2.: É uma curiosidade inútil, mas sempre quis ser locutor de um webradio, até aprendi a usar o ShoutCast e o SAM Broadcaster. Mais uma vez, minha limitação era a internet discada da época. De toda forma, acho que não teria feito muito sucesso devido ao meu gosto musical. lol

Publicado por

Daniel Araújo

Redator-chefe do próprio blog. Escreve bem sobre absolutamente nada, tem opinião sobre absolutamente tudo. Ninguém se importa mesmo assim.

Um comentário em “#Ragnarok: Uma breve história na BRASnet”

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