Dá um tempo, vai!

Meu primeiro post. Aviso: faço crônicas, fico mais próximo do leitor, uso linguagem simples e direta, sempre com muito humor e ironia, peso e leveza.

Fabuloso é o desenvolvimento científico, principalmente quanto à melhoria da “qualidade” e da “expectativa” de vida. Nunca se viveu por tanto tempo e com saúde. Não raro, homens na “melhor” idade ainda são ativos, trabalham, estudam, fazem sexo (com a ajuda da pílula azul porque ninguém é de ferro), são vaidosos, fazem plástica, enfim, continuam “jovens”. Ah… que maravilha…

Tudo bem que agora é possível viver até os 100 anos ou mais. No reino animal, até que é razoável. Para um bicho que tinha uma estimativa de vida de 20 anos tempos atrás, isso representa um inegável avanço, resultado de sua alta capacidade intelectual e cognitiva. Ah… sim,  bravo! Clap! Clap… clap (para quem não entendeu a onomatopéia isso foram palmas sem o menor entusiasmo).

No Neolítico, período no qual nossos ancestrais começaram a aprender técnicas de agricultura, deixando o nomadismo de lado, formando tribos e se “civilizando”, vivia-se no máximo até 20 anos. Era só caçar, plantar, coçar, transar. Deve ser por isso que eu, nos meus vinte e poucos, estou me sentindo como um velho inútil.

Já nos sapientes tempos modernos, vive-se por mais tempo. Antibióticos, vacinas, urbanização, máquinas de lavar, academias, camisinhas, embalagens descartáveis e e hermeticamente fechadas, alimentação orgânica – livre de agrotóxicos e “químicos” (proposital), zen-budismo, lexotan (ainda não existe o Soma huxleyniano), auto-ajuda, carros esportivos, internet, orkut, twitter, videogames, animes. A vida se estendeu por melhorias sanitárias e, concomitantemente, deixou de ser apenas caçar, plantar, coçar, transar.

Há relógios por todos os cantos possíveis, no quarto, na sala, no escritório, no computador, no celular, no carro, na padaria, no mercado, na sua mente movendo engrenagens em perfeito descompasso com os batimentos cardíacos – quando um bate o outro trava, e assim segue sem o menor ritmo. Vivemos mais, tudo bem. Contudo, entupimos nosso irrisório tempo com coisas fúteis (lendo esse blog, né esperto?). Os ponteiros marcam a passagem, avançam impiedosamente, cada vez mais rápidos. Conte um minuto mentalmente e verá que se passaram vários dias. Um fenomêno que leva ao absurdo a teoria da relatividade do tempo.

Solução? Não sou de oferecer panacéias ou Somas para você, caro paciente leitor. A farmácia é logo ali na esquina, qualquer esquina. Soluções do tipo, perceba as coisas simples da vida, dê mais sorrisos, aproveite melhor cada segundo como se fosse o último, ajude alguém que precise de você, ame as pessoas ao seu redor, etc. etc. são apenas recomendações tolas, geralmente associadas com o aumento da produtividade no trabalho. A sujeira debaixo do tapete e a casa impecável. Fique tranquilo, estou aqui para levantar a tampa da privada, mostrar os ratos putrefando. É, por isso algo estava cheirando mal.

E tudo fica dessa jeito? Sim, exato. Minha função é incomodar. Ohh?! Não gostou? Ficou desapontado?! Então eu fico safisfeito. Ora, vá ver novela ou futebol. Perca seu tempo, que o meu já se foi.

5 Respostas para “Dá um tempo, vai!”


  • legau seu post, meu, continue postando.

    haha, falando sério. vai precisar cavar um pouco mais para me incomodar. tire bom proveito do blog.

  • Vou postar aqui também o que for compatível. Vai ser impossível incomodá-lo agora, meu caro. Até porque… Rarará!!! Está num estado de imperturbabilidade, isso não vale.

  • Acho que sei distinguir perfeitamente emoção de lógica. É claro que minhas idéias são tão pouco relevantes quanto meus posts.

  • O QUE PASSOU, PASSOU?

    Antigamente, se morria
    1907, digamos, aquilo sim
    é que era morrer.
    Morria gente todo dia,
    e morria com muito prazer,
    já que todo mundo sabia
    que o Juízo, afinal, viria,
    e todo mundo ia renascer.
    Morria-se praticamente de tudo.
    De doença, de parto, de tosse.
    E ainda se morria de amor,
    como se amar morte fosse.
    Pra morrer, bastava um susto,
    um lenço no vento, um suspiro e pronto,
    lá se ia nosso defunto
    para a terra dos pés juntos.
    Dia de anos, casamento, batizado,
    morrer era um tipo de festa,
    uma das coisas da vida,
    como ser ou não ser convidado.
    O escândalo era de praxe.
    Mas os danos eram pequenos.
    Descansou. Partiu. Deus o tenha.
    Sempre alguém tinha uma frase
    que deixava aquilo mais ou menos.
    Tinha coisas que matavam na certa.
    Pepino com leite, vento encanado,
    praga de velha e amor mal curado.
    Tinha coisas que têm que morrer,
    tinha coisas que têm que matar.
    A honra, a terra e o sangue
    mandou muita gente praquele lugar.
    Que mais podia um velho fazer,
    nos idos de 1916,
    a não ser pegar pneumonia,
    e virar fotografia?
    Ninguém vivia pra sempre.
    Afinal, a vida é um upa.
    Não deu pra ir mais além.
    Quem mandou não ser devoto
    de Santo Inácio de Acapulco,
    Menino Jesus de Praga?
    O diabo anda solto.
    Aqui se faz, aqui se paga.
    Almoçou e fez a barba,
    tomou banho e foi no vento.
    Agora, vamos ao testamento.
    Hoje, a morte está difícil.
    Tem recursos, tem asilos, tem remédios.
    Agora, a morte tem limites.
    E, em caso de necessidade,
    a ciência da eternidade
    inventou a criônica.
    Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.

    Paulo Leminski

  • embora pareça relevante, não acho que você tenha entendido a “moral” da crônica

Deixar uma resposta