Crônicas de um poeta iludido

Não é uma crônica, tão pouco um poema. Embora “poeta iludido” pareça pleonasmo para alguns e contraditório a outros, é uma visão interessante: poetas são radicais.

Posso dizer que um poeta é alguém que, no mínimo, destaca-se. Possui idéias fora do comum, condutas questionáveis e uma pincelada de criatividade. Inundados de idéias facinantes em seus ritmados versos, estes seres perfumaram a sociedade e, também, apodreceram muitas mentes ao longo da história. Como sempre, radicais. Ora românticos, ora secos; ora sensacionalistas, ora céticos.

Mas a vida, meus caros, não se resume a uma poesia; não se define os sentimentos em versos ritmados; não tem como apagar e corrigir, não ensaiamos. Temos que escrever em versos livres, definitivos, o melhor possível e não sabemos a que movimento pertencemos. Ao final, o que resta é apenas as cinzas e, não, não renascerá.

Como a criatividade é tão pouco valorizada atualmente?

Como já dissertado, o que se vê de “criativo” hoje é quase que 100% cópia. Uma junção de temas correlacionados (ou não) pode conferir em um resultado criativo, mas isso já é outro assunto. Quando nos deparamos como algo “criativo”, apenas olhamos e pensamos “legal”. Dificilmente é motivo para realizar o que o objeto em si tivesse como objetivo (como uma propaganda de um produto, ou seja, vender.). É digno apenas de um breve elogio e “não se fala mais nisso”.

E foi a última vez que pensei em ser poeta.

Flopenhague

A alvissareira 15ª Conferência sobre Mudanças Climáticas da ONU (COP 15), iniciada no dia 7 de dezembro de 2009 em Copenhague, não terá um acordo vinculativo e legal para a redução das emissões de gases. Inicialmente, foi chamada de Hopenhague, de “hope” (esperança), mas logo ganhou novo apelido, Flopenhague, de “flop” (fiasco). Jovens verdes de todo o mundo devem ter ficado chateados. Que pena.

Esta geração terceiro milênio tem de se preocupar com o futuro. Os rios poluídos, as matas devastadas, o aquecimento global, a extinção dos animais, o derretimento das geleiras, gases tóxicos, lixo digital, desastres causados por fenômenos climáticos. Tantos desafios para defender a perpetuação de uma única espécie: os humanos.

Mas isso é fácil e simples! E melhor, está na moda. A “galerinha descolada” é vegetariana ou come pouca carne, planta árvores, só consome produtos que não degradam tanto fazem “bem” ao ambiente – de preferência light e com gosto de plástico, carregam eco bags, usam cosméticos que não são testados nos coitadinhos dos bichinhos fofinhos (ai!), separam o lixo reciclável, andam a pé ou de bicicleta, fazem manifestações pró natureza – escalam até o Cristo redentor se for preciso; mas o Cristo é de pedra, totalmente inerte e indiferente, tem mais utilidade no cartão postal.

O fiasco está disseminado em toda parte, não somente na conferência. Ideais absurdos ecoam desde a Era das Luzes e reverberam nas mentes frescas daqueles que precisam loucamente de uma ideologia para viver – no caso, os mais sensíveis (ainda que tolos). Já os mais brutos utilizam esses ideais como piercing ou um penteado moderninho, bem descolado; e ainda se colocam como engajados e conscientes – o futuro do Brazil.

Diante desse cenário, prefiro ser sujo. Aquele que peida e fica feliz porque o metano liberado vai contribuir com o efeito estufa. Minha vida depende inegavelmente da degradação do que estiver ao meu redor. E vejo que não apenas o meio ambiente se degrada, mas também o homem apodrece e fede. Está na hora de enterrar o cadáver.

PS: Falo do cadáver me referindo ao projeto de homem. Ah! Não me venha com bobagens que em 2012…

Nacirema

Estava vagando por alguns fóruns de discussão que eu acho razoavelmente “decentes” e me deparo com um tema de uma certa relevância para mim. A sociedade atual (visão não tão particular) está tomada pelo consumismo. Antes, o lazer não fazia muito “parte da rotina”. As 8 horas de sono, 8 horas de trabalho e 8 horas de lazer tinham proporções diferentes. É claro, em contraposição, surgem o círculo de revoltadinhos que adoram criticar a sociedade atual.

Como já perceberam, eles são ridículos. E como já devem ter pensado, já fiz parte de um. Não estou tão arrependido, pois isso me trouxe um certo conhecimento e melhorou minha capacidade de argumentação. Mas não é argumentar dizer que “as pessoas estão americanizadas por usar roupas da nike, matar sua fome no McDonald’s e beber coca-cola”, e dizer que as coisas de origem americana são um lixo e “eu sou descolado”. Pára. Você não vive sem as regalias da atualidade, pois você nasceu e cresceu nela.

Vem-me um amigo dizer: “Eu não uso roupas da nike porque eu sou nacionalista, sou contra as multi-nacionais que só querem nos explorar e blá blá blá.”. Quase virei as costas e deletei ele da minha memória. Eu não uso nike. Por que é CARO. Nós compramos a marca, não o produto. Adoro coca-cola. Como Mc só às vezes porque é CARO. Onde está o problema em desfrutar de produtos industrializados que vieram dos EUA? Continuo brasileiro, bem típico, por sinal (por fora), fazendo coisas que me agradam. Consumir os produtos porque todos consomem é padrão, não consumir porque todos consomem é um desvio padrão. Saiba pensar por conta própria, isso, sim, não é padrão (embora o nosso “gosto” seja, sem dúvida, influenciada direta ou indiretamente pela massa).

Qual é o nosso valor se formos todos iguais? É igual escolher um produto no mercado. Os industrialiados são todos iguais, enquanto as frutas ou carnes, você escolhe. Não que eu queira ser escolhido, mas também não quero que pensem que sou igual aos outros da prateleira. E eu não tenho preço.

Pseudo-intelectualismo

Falemos de deus. Não me refiro a religião, nem ao Deus dos católicos ou outras referências divinas pregadas pela religião. A crença de que há um ser ou uma existência acima do que se pode imaginar sequer por pobres seres pensantes como nós existe desde a existência. Um dos primeiros passos do homem que apenas caçava, plantava, coçava e transava era o homem que orava. Orar no sentido de adorar alguma imagem da natureza que lhe parecesse maior, não necessariamente expressar em palavras.

A diferenciação que nos é feita de animais para seres racionais é devido ao comportamento diferenciado que possuímos. Além de formar sociedades, formulamos uma maneira mais complexa de comunicação, regras implícitas e explícitas. Uma forma primitiva de ética e moral. Mas, assim, do nada? Alguém chega e “galera, cavei uns mandamentos na pedra aqui, bora cumprir.”? Bem vindo ao mistério da evolução.

Mas é mais simples do que se parece. Algo de que se tem uma noção não pode estar tão longe. Os homens inteligentes das maiores sociedades humanas já formadas usufruíram do papel de controladores sociais da religião. Poderia dizer que a religião é um tipo de cultura, um tipo de formação social com condutas morais um pouco mais explícitas, mas com um fator importante: a existência de deus.

“Existência” é hipocrisia, claro. Nunca devidamente provada, o “deus” era um objeto distante mas “tangível”. Possuía sempre uma imagem. A mais comum, do sol; de uma imagem e semelhança dos homens, mas com um ideal; animais locais. Como uma crença pode se tornar um objeto, usado por poucos para controlar muitos. Quem soube usar, soube reinar. Obviamente, como a ganância dos homens parece que aumenta quanto mais poder ele tem, alguns querem se tornar os próprios deuses. A “existência” de deus, de novo, fodendo com a galera.

Pretendo “formalizar” esse tipo de post como “pseudo-intelectualismo”, ou seja, são os posts que menos importam.

Ai, que dó do Haiti!

A mídia não para de falar sobre o terremoto no Haiti. Um país trágico pela sua história. Apesar de ter sido o segundo país da América a se tornar independente, e ainda por negros, não conseguiu se firmar como Estado, desenvolver-se e vir a ser uma nação pelo menos digna de ser assim chamada. “Livre”, passou por guerras civis e foi governado por ditadores,  sofrendo sanções e embargos econômicos. Sem falar numa das mais sangrentas ditaduras da história, com Papa Doc e Baby Doc, apoiada pelos EUA, em plena Guerra Fria.

No cenário internacional, está sendo usado apenas como instrumento do joguete das brigas de forças, poder e influência entre os países. O “bom” EUA do nobel da paz (Oba-)Obama manda tantos milhões, a França do garanhão Sarkozy manda tantos médicos, o Brasil do ex-metalúrgico Dr. Lula tenta enviar marmitas e é barrado. Até o Bush entrou na roda. Não há limites para aproveitar a miséria alheia. Ah! Os haitianos! É mesmo! Quem vai ser o fotógrafo que vai ganhar o prêmio de melhor foto do ano? Certamente, será uma imagem do Haiti. A mesma boca que beija é a que escarra, não é mesmo Augusto (dos Diabos)?

O tema do dia: compaixão. Segundo Milan Kundera, no seu famoso livro “A insustentável leveza do ser” – leitura obrigatória para os pseudo-intelectuais -, amar alguém por compaixão, não é amar de verdade, porque quem sente compaixão por outrem se coloca em uma posição superior, olha de cima para baixo, e estende a mão para o outro que sofre (depois lava a mesma mão com álcool em gel). Por esse motivo, ninguém está se interessando pelo povo haitiano. Todos querem tirar vantagem. Ora! Não me diga que você chora e reza por eles? Disso, concluo que a mídia fez um excelente papel, deu muito Ibope, vendeu muitos jornais e revistas. Ou uma segunda conclusão mais cruel, que você também está tirando uma casquinha, querendo se redimir de algum erro ao fazer um ato de caridade…

Kundera ensina ainda que compaixão significa  sentir a dor do outro, um sentimento ruim ou medíocre, um “co-sofrimento”. Já em outro sentido, uma palavra que significasse não só sentir o sofrimento alheio, mas qualquer sentimento, como dor, alegria, angústia, paz, gozo, frustração,… designaria, agora sim, o maior sentimento de todos, uma arte até, a “arte da telepatia das  emoções”. Dessa maneira, poderia-se amar de verdade.

Moral da crônica de hoje (e ainda vem com papinho de moral, cínico?): Se alguém um dia lhe disser “Tenho dó de você”, desconfie. Falando nisso, conseguiu deixar o Haiti um pouco de lado agora? Ou ainda quer assistir mais ao Big Brother da dor? Como queira. Espere no sofá que vou buscar algo bem forte para beber, um lencinho perfumado com cheiro de lavanda e um terço para você rezar. A bebida é pra mim.

Referências: KUNDERA, Milan. A insustentável leveza do ser. Rio de Janeiro: Record, 1983, p. 25-26.